A Fleuma e o Cólera

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Deve haver mesmo dois seres que habitam em você como dizem os psicólogos, espiritualistas e outras pessoas que estudam esse tipo de coisa. Um pedaço de mim está aqui sentado no computador tentando fingir que a vida voltou ao normal e o outro pedaço está jogado no chão da sala, inerte, agonizante, implorando como um animal ferido pra ser sacrificado, para que essa dor mortificante passe de uma vez por todas. Realmente há mesmo dois de nós, eu estou me vendo agora.

Engraçado dizer isso, porque eu já tinha me despedido de você há vários dias atrás. Acho que pelo menos isso eu tenho que agradecer, porque no fim das contas você sempre foi muito transparente no que testava sentindo a todo o momento, e eu consegui ver, deus como eu vi. Você me disse adeus aquele dia e eu sabia disso, só demorei tempo demais pra aceitar e perceber que a nossa história estava acabando, e essa parte que demorou pra ver isso, esta lá jogada há uns 10 passos de mim me olhando com uma cara de “Você, por favor, não vai fazer nada?”.

Levanto-me então, vou até a caixa onde guardei todos os resquícios que sobraram de você: os ingressos de cinema que eu guardei e que nem consigo ler o nome do filme e a data, maldita tecnologia; as pulseiras das festas em que fomos juntos e que eram sempre tão “as melhores da minha vida” que eu não conseguia não guardar um souvenir; as nossas fotos, todos os nossos registros da vida que eu achei que estava levando até você ir comprar cigarros e nunca mais voltar. Todas as lembranças estão agora como balas de revolver na minha mão! Para cada carta rasgada um tiro na perna, daquele que dói pra caralho, mas não mata, só sangra aos jatos. Para cada canudo de refrigerante em forma de flor que você me deu, dobrado com tanto esmero enquanto a gente comia naquela lanchonete vagabunda, um tiro na coxa, que pega de raspão no osso e estraçalha, me fazendo gemer mais ainda. Para cada foto rasgada, um tiro no estômago, seguidos de vários disparos na região do peito, braços, até um de raspão na têmpora, que esmigalham tanto que não sei como ainda não desfaleci. Pego agora o ultimo “Eu te amo” escrito por você, naquela tarde em que a gente foi pela última vez ao pátio central daquele parque, o papel duro e reluzente de limpar a boca, não sei nem quanto deve custar um milhar disso, dois reais talvez?, miro bem na minha cabeça, me olhando agonizando no chão, implorando para que aquilo acabe de uma vez. Miro logo acima da região dos olhos, entre os dois, não penso meia vez e então puxo o gatilho. Acabo de matar a parte de mim que você não tinha conseguido matar quando disse que não me amava mais.

Vá em paz ser humano infeliz. Sento-me novamente ao computador. Meu café esfriou mais do que deveria.

Rodrigo Lima Romano
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