(Des)Amores Inventados nas Tardes de Sábado

06

A barba era cerrada, e foi a primeira coisa que lhe agradou ao olhar o rosto do desconhecido. Imaginou como seria se aqueles pelos percorressem seu pescoço, ombros e costas. Aquele rosto “sujo” deixaria a pele avermelhada e gostosamente irritada com o atrito. Aquela barba era ridiculamente afrodisíaca.

Ele indicava a vaga em que ela deveria deixar o carro. Sentiu vontade de beijá-lo ali mesmo, no estacionamento do subsolo daquele prédio, entre as tubulações e carros desligados, provavelmente enquanto algum segurança se divertia, assistindo o vídeo por quatro ângulos diferentes. Ele estava de bermuda, camiseta polo e chinelo, largado como adolescente despretensioso que joga vídeo game à tarde com o vizinho do andar de baixo, após sair do ginásio. Mas ele já era pós-graduado em Marketing e Cafajestagem, e aquele sábado nublado de São Paulo começava a ficar interessante.

Possivelmente, usava o apartamento para rituais-sexuais-descomprometidos, e isso não minimizava nenhum pouco a vontade dela de arrancar logo aquela bermuda. Subiram até o sétimo andar. Antes disso, a caminho dali, passaram em uma loja de conveniência e compraram cervejas. Ensinaram-lhes desde cedo que não é educado chegar de mãos vazias e que o álcool é um psicoativo que aumenta a libido e diminui a timidez. Ela reeditava ali mais um mentiroso caso de amor, um conto-nada-de-fadas, e a cada pegada mais forte pela cintura, lembrava que não deveria ligar no dia seguinte. A cada sussurro no pé do ouvido, cravava as unhas nas costas e na possibilidade de não responder o próximo e-mail. Colecionava amores em estado gasoso, desses que evaporam rapidinho após o orgasmo.

Quando percebeu um possível traço de afinidade, levantou-se e foi tragar um cigarro. Enquanto ele tomava banho, cansado e exausto de tanto sexo e diálogos, ela tratou de correr os olhos pelo quarto do rapaz. Passeou pelos livros na estante do quarto e pelos DVDs de séries americanas por ali espalhados. American Horror Story ao lado do controle remoto. Parecia não ser do mesmo dono do boneco cowboy do Toy Story, que sorria sentado no assoalho no canto do quarto. Na ponta dos pés foi espiar a sala. Enquadrou cada pedaço sem se preocupar se a atitude seria invasiva e deselegante, não havia outro olhar lhe censurando mesmo. Fugia-lhe a necessidade de ser elegante.

A TV led de 50 polegadas era o excesso para equilibrar a falta. A parede verde escura da sala guardava mensagens em giz escritas por amigos e familiares. Leu “Orgulho da mamãe” e ficou imaginando como seria sua mãe e em qual momento teria feito a dedicatória. “Londres te fez bem, subiu de vida, mano” – essa, possivelmente, seria uma observação de algum amigo íntimo que poderia comentar dessa forma sem parecer invejoso ou coisa do tipo. Havia uma lista de presença com alguns nomes relevantes, ali assinados. Com certeza não ofereceria a ela um giz para um rabisco, e isso não fazia a menor diferença no momento. No vaso branco, próximo ao sofá, faltava uma planta qualquer ali, algo verde e com vida, talvez uma samambaia. Em vez disso o vaso era povoado por inúmeros palitos de incenso queimados, em repouso na areia. Mirra, Cravo ou Patchouli camuflaram o cheiro dos inúmeros baseados ali fumados. Imaginou vertigens em meio ao quadro dos Beatles e a mesa de sinuca e jantar. Sorriu de canto.

Voltou à realidade quando ele abriu a porta do banheiro. Sabia que o amor estava longe disso tudo. Não o acharia assim, em um encontro casual.

– Preciso sair para fazer algumas coisas – ele disparou.

– Claro, sem problemas – o gosto do amor inventado lhe desceu a garganta.

– Eu não valho nada – ele tentou novamente se dissipar daquele instante.

No momento seguinte ela se reinventou e pagou com a mesma moeda. Chumbo trocado não dói.

-Eu também não.

Eder Fabrício

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