Dois “Tiques” Visualizados

08

São exatamente 17h38m e eu sei com exatidão o horário porque deve ser a ducentésima sétima vez que eu chequei a tela do celular. Aliás, você está exatamente com 43 minutos de atraso, com exatidão britânica, já que estamos falando em tons matemáticos. Além de reler o cardápio outras ducentésimas vezes, nesse ínterim, me coloquei a pensar em nós dois, e mesmo relutando, mesmo tentando me animar a cada novo clique na tela, me dei conta de que nada ia mudar a constatação que me batia no ombro há algum tempo: nós somos os sujeitos certos em uma relação completamente errada.

Ninguém jamais me entendeu como você. O grande paradoxo que me espanta é que ao mesmo tempo em eu nem precisa olhar pro teu rosto para ler a sua desaprovação (em tom de sarcasmo) do meu programa fútil semanal, você também me olhava muitas vezes com o olhar de uma criança de quatro anos pegando um livro pra ler: a menor ideia do que aquele amontoado de letras fazia dando as mãos. Você sabia do meu TOC com simetrias, a maneira como eu odiava a sua sobrancelha arqueada (mesmo que você fizesse isso sem querer), o meu falso protesto te dizendo pra parar quando você me abraçava por trás enquanto eu lavava a louça, pelo simples prazer de ver o arrepio subindo pelos meus braços (adorando mais ainda o fato de eu mentir dizendo que era por causa da água fria). Até aquele seu sorriso torto, com o cigarro apagado na boca, mesmo agora, com você estourando os 51 minutos de atraso e eu odiando o gosto de tabaco, ainda me desconserta. As brigas em que você me importunava com o seu desdenhoso “Tá bom então.”, e que me fazia querer atirar toda a estante, pratos, e a merda do seu computador em você. Você sabia muito e ao mesmo tempo nada de mim, e a verdade é que isso me entristecia mais do que tudo nessa vida. Você deveria ter se importado mais. Eu só pareço essa fortaleza, mas na verdade é tudo balela.

Olho para o celular mais uma vez. 1h04m de atraso. Me dei conta que as duas moças do caixa cochichavam algo sobre mim. Não dei bola. Meu embaraço estava na verdade todo embolado por dentro. Essas semanas em que a gente levou essa ‘relação’ meio torta na mochila, me mostraram que talvez não valha a pena no fim das contas. Toda essa história que rodou na minha cabeça nem precisou acontecer de verdade, foi mais um prólogo que eu escrevi na minha cabeça dadas as características dos personagens dela, você e eu. Eu sabia que mais cedo ou mais tarde ela iria de fato ser encenada por nós. Cá estou eu, te abortando então. Abortando a nossa história não ocorrida, meus protestados calafrios em frente a pia, os vidros de shampoo em ordem de tamanho, o seu computador estraçalhado no chão da sala. Prefiro me ater à parcela boa que me cabe nesse rolo que a gente criou. A parcela a salvo.

Checo de novo o celular. Já não importa mais o seu atraso. Dou um gole no suco meio aguado do gelo que se dissolveu. Olho pra sua cadeira vazia e me despeço de você.

Nunca mais nos vimos.

Rodrigo Lima Romano
Anúncios

One thought on “Dois “Tiques” Visualizados

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s