A mentira que mais contei na vida

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Você foi embora levando todas as roupas que te dei de presente, o computador que compramos juntos, a cadeira do design famoso que você escolheu para a nossa sala e a minha mala de viagem preferida. Mas se eu fosse colocar no papel, de verdade, tudo mais o que você levou, talvez você tenha levado uma parte da minha vida quando bateu a porta também. E sabe qual foi a primeira coisa que eu fiz antes de arrumar a bagunça que você deixou? Eu corri para o espelho para me dizer que estava tudo bem.

Tudo bem. Era só a milionésima quarta vez que eu contava essa mentira. Ou mais até. Depois da décima, perdi a conta. A mentira perdeu a força também. Dizem que, quando contada muitas vezes, uma mentira se torna verdade. Mas como mentir na cara dura para o seu próprio reflexo quando aquele olhar zombador te diz: “na boa, garota, chora aí que ninguém tá vendo”?

Quando meus pais se separaram, do jeito mais traumático que pais podem se separar, eu tampei os ouvidos para não escutar os gritos. Eu fechei os olhos para não derramar lágrimas. E me escondi no porão da minha mente para fingir que nada daquilo me afetava. E fiquei lá, sentada na minha cadeira de balanço imaginária, repetindo como um mantra: tudo bem, tudo bem, tudo bem, tudo bem. Até que me arrancaram dali e me fizeram encarar a vida sem me dar tempo de chorar no mundo real. E tudo bem. Eu já não tinha mais dez anos, quando ainda podia chorar e pedir para dormir na cama dos meus pais. Até porque meus pais não dormiam mais juntos. Mas tudo bem.

E eu fui repetindo isso em cada esquina da minha vida. Fui empurrando com a barriga todas as minhas dores, numa pressa doentia de ser feliz logo. Porque quem quer ser feliz logo não pode dar tempo para a tristeza. Porque quem quer ser feliz logo não para e chora suas dores. E quem quer ser feliz logo não fica com vontade de desistir de tudo só porque o namoradinho, depois de cinco anos, bateu a porta de casa e disse que nunca mais ia voltar. Nem quando a melhor amiga conta todos os seus segredos para as pessoas que mais te odeiam. Nem quando seus pais param de falar com você porque você não seguiu a carreira que eles queriam. Quem quer ser feliz logo não chora por isso. Não é?

Só que, hoje, eu resolvi contar a verdade só um pouco. Para mim mesma, nem precisei espalhar para o resto do mundo. Porque não, muita coisa não ficou bem. Os gritos que eu ouvi (e fingi que não) continuam ecoando em meus ouvidos. As traições que encarei e fingi perdoar continuam presas na garganta. As decepções que engoli em seco e nunca joguei na cara de ninguém ficaram perdidas em vinganças que eu nunca dei – mas sempre quis dar. Nada bem. Ficou tudo aqui, marcado, silenciado, escondido, para o dia que eu resolvesse ser sincera com o meu próprio coração. E entre nós dois, amigo, a gente sabe: tem mais dores do que a gente pode aguentar. Então, hoje, falemos a verdade: não, não tá tudo bem. Quem sabe assim comece a passar.

Karine Rosa

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