Diacho, ele tem que querer…

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O apego me abraçou hoje. Eram 15:43h, e ele me deu um aperto na costela. Peguei-me revirando as nossas caixas. Aquelas que guardávamos embaixo da escada da nossa dispensa. Engraçado o fato de que escolhemos um lugar com um nome tão cheio de desdem, uma ‘dispensa’ para algo que tínhamos tão caro em nossas vidas. Talvez devêssemos ter guardado-as embaixo dos nossos travesseiros, dentro dos armários de documentos, dentro dos nossos corações que fosse, com um rasgo enorme do peito, não costurado, para visitarmos sempre que possível. Será que estaríamos a salvo assim? – pensei – Bem quem há de saber não é? O meu dedão roçando na parte debaixo meu dedo solitário diz hoje que não, éramos já desde sempre fadados ao nosso descaso.

Éramos duas crianças imaturas. Você com os seus idealismos existencialistas e suas frases retiradas como de um “Nisztche de Bolso”. Eu como o meu autismo, minha dislexia diária e o jeito como eu não me importava com o fato de sempre esquecer de tampar o creme dental quando saía para o trabalho de manhã. Porra, a gente nem morava junto! Talvez minha falta de zelo e o seu estoicismo político esqueceram-se de dar as mãos quando decidimos juntar os nossos corpos. Mas como eu adorava te observar esbravejando contra mim, usando palavras difíceis como se você fosse me ferir com o seu português afiado, às vezes cuspindo as palavras como facas. Até das nossas brigas homéricas eu sinto falta. Mesmo agora, anos depois de ter deixado o som do aperto do seu abraço esmagador, dilacerador, me dizendo que eu não tinha outra coisa melhor para fazer enquanto enfiava a mão nas minhas calças (e não tinha mesmo, foda-se a resenha), ou que a louça podia esperar até amanhã; tremulando várias vezes me senti dentro dos avessos dos nossos lençóis , dentro das apaixonantes tardes onde matávamos o trabalho e nos embaraçávamos, atrelávamos, adentrávamos nas carnes um do outro, matando a sede, a fome, matando o mundo inteiro lá fora por mais 5 minutos dentro do nosso quarto de paredes amareladas rabiscadas.

O apego é um hábito triste de se perder. Peguei a nossa foto agora, e parece que tudo nela me diz que eu vou te ouvir entrar cantarolando aquela música insuportável do paralamas e dizer “Hello Stranger!”, como se você não tivesse copiado isso daquele filme daquela mocinha boa atriz. Você era tão piegas. Daí você me via com uma aparência pós-nuclear, de óculos, pantufas, calça de moletom e camiseta do centro acadêmico estudantil da faculdade, porém me encarando como se eu fosse o pedaço mais belo de ser humano do universo. Ninguém nunca mais me olhou desse jeito novamente. Deve ser por isso que mesmo depois desses anos todos, eu ainda te procure no meio da multidão, em todos os rostos, até nos rostos de crianças de 4 anos de idade, no de senhoras chinesas de bengala, como se fosse possível te transfigurar em alguém. Não consegui me desapegar de nós. Vivo bem sem você, é claro, muitíssimo bem obrigado, mas o ‘querer’ e o ‘ser’ são verbos de sentido tão diferentes, não é mesmo?

Rodrigo Lima Romano
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