Precipício

03

Olhei para trás e só enxergava um precipício no lugar onde um dia nosso amor habitou. Quis correr e me jogar nos primeiros dez dias, mas permanecia parada olhando um caminho que já não tinha retorno. Mastigava lembranças para alimentar meu coração, embora o sentisse mais fraco todos os dias. Pouco do que eu lembrava parecia verdade, embora eu visse tudo com mais clareza do lado de fora da nossa casa. Eu sempre arrumava um espaço pra você na minha cama, no meu lado, na minha vida. Você sempre se cansava de andar acompanhado e me deixava, sem avisos ou beijos de despedida. Dias mais tardes você reaparecia, sorrindo como se tivéssemos acabado de acordar das estrelas. Eu esquecia minhas lágrimas da noite anterior e te sorria de volta. Foram anos assim. Só demorou tanto tempo porque eu acreditava que um dia você não sairia às escondidas pelas portas da minha alma como se eu tivesse te prendido em mim. Mas agora, vendo você sorrir como se nada tivesse acontecido e sentindo meus olhos arderem pela falta de sono, percebi que eu já não posso te salvar. Sinto muito em te deixar agora, mas você já me deixou há muito tempo. Eu não ouso chamar de amor se não pudemos viver mais do que uns dias em paz.

Vomitei essas palavras para o precipício e então segui o caminho que me restava: era vazio e sozinho, mas pelo menos agora eu poderia seguir em frente e parar em alguma casa nova, sem as mesmas dores e lembranças da nossa.

 Selena Krescher

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