Sobre relacionar-se e a plantação do pomar alheio.

010203

Ah o amor! Todos os grandes escritores e poetas já escreveram sobre o amor, cada um a sua maneira. Alguns o trataram com extrema melancolia, outros com extremo caso de euforia, outros como a banalização do “Eu”, e há quem descreva o amor como um grande estado de entrega altruísta, um sentimento de contemplação do outro que se vê apenas em relações onde o sangue é o principal laço. Shakespeare uma vez disse “A jornada acaba em um encontro de amantes.”, e essa busca pelo amor, pelo outro se tornou uma das grandes mobilizações e frustrações da nossa civilização ao longo dos séculos. A grande verdade é que apaixonar-se é quase como tomar uma dose cavalar de um calmante poderoso: você toma e na hora não percebe que mesmo ali naquele momento ele já está fazendo efeito, alterando o seu reflexo, neblinando sua visão, e quando você se dá conta está ali, mole, inerte, com forças apenas para se jogar nos braços do seu amado; no caso o travesseiro, e é esse o grande desfecho do apaixonar-se, a entrega.

Para mim, particularmente, é nesta palavra que existe os grandes encontros e desencontros da paixão, porque muitas pessoas entendem a semântica da palavra ao pé da letra, e de fato se entregam completamente a mercê desse sentimento intempestivo e volúvel, e pior, colocam anexado a este enorme pacote um bilhetinho escrito a mão, com letra de caderno de caligrafia a seguinte frase: “Aqui está o meu coração para você, e agora você é responsável pelo que você cativou. Um beijo e cuida bem dele! Ps.: Você poderia colocar na lista das suas prioridades a tarefa me fazer feliz pra sempre não importa como? Obrigado!”. Percebem? Como você pode ser tão irresponsável a ponto de colocar na mão de outra pessoa a responsabilidade enorme de lidar com toda a sua imperfeição (e perfeição também), toda a volúpia da sua vida, seus desejos, suas vontades e carências e esperar que alguém que você conheceu há poucos meses consiga lidar com esse terabyte de momentos e sentimentos que é a sua vida. Erro número um, que leva aos erros, 2, 3, 4,…!

Hoje conversando sobre esse assunto me dei conta de uma grande verdade sobre o apaixonar-se, que tem a ver com o fator independência. Você, enquanto uma pessoa solitária, se conhece como o único dono de sua existência. Você trabalha, paga suas contas, sai com os seus amigos, e muitas vezes mora sozinho e tem todo um universo girando à sua própria vontade. Pelo menos a minha vida sempre foi assim, e eu gosto de ser rei do meu pequeno quadrado. Quando você decide relacionar-se com alguém é como se você decidisse ceder um espaço na sua vida para outra pessoa; como se você encurtasse o espaço do seu quintal para essa outra pessoa plantar ali o seu próprio pomar. Você pode até pensar: “Então, você está aí semeando, lavrando, mas esse quintal ainda é meu, ok?”. O problema, para mim no caso, mora justamente no fato de essa pessoa esquecer com o tempo que o quintal era meu, e de repente começar a me dar ordens, reclamar da minha macieira desleixada, construir cercas ao redor dos meus laranjais e isso afetar o meu senso de independência. Neste caso, invariavelmente, eu sempre reivindicaria o meu quintal de volta. Porém, relacionar-se é algo tão complicado que neste “contrato de inquilinato” que se estabelece quando você decide escolher alguém para amar, a teoria e prática quase sempre destoam muito, a começar pelas diferenças nas escolhas de aragem, na escolha das sementes que vão vingar lá na frente, entre todas as outras diferenças que existem entre duas pessoas. Dito isso há ainda a possibilidade (enorme) de a outra pessoa a qualquer momento te lembrar do fato irrefutável de que VOCÊ foi o cara que cedeu o espaço para esse plantio, em primeiro lugar. E onde mora a razão agora?

As pessoas são diferentes demais umas das outras para que possam sonhar na utopia de que a outra será realmente a melhor pessoa para cuidar do seu pedacinho cedido. Cuide você do seu e ele do dele, e ao invés de juntar os quintais, ajude-o então a cuidar do dele, e ele do seu. O casamento, a instituição mais procurada para estabelecer esse contrato de inquilinato, quase sempre é mais o levianamente tratado. A maioria das pessoas que se casam sequer tem ideia do tamanho do contrato que acabaram de assinar, e ouso dizer que poucos casais na história da humanidade deram esse passo de maneira realmente consciente de que estavam oficializando “uma perda enorme de hectares”, sem retorno, porque nem mesmo em caso de separação seria possível recuperar os danos de anos de plantio e de descaso que acabaram completamente com aquele pedaço de quintal seu que o cara usou e agora largou ali pra você cuidar novamente.

Minha conclusão sobre essa busca eufórica, para não dizer inevitável, desta nossa geração que sofre da praga de Zeus é que: Não há regras. Não há manual a se seguir. Mas há constante e sempre presente a sua responsabilidade de cuidar da sua própria felicidade. Não leve “O Pequeno Príncipe” tão a sério, ao invés disso, pare de ser covarde e assuma a responsabilidade e controle sobre a sua vida e seus sentimentos. Somente quando você aceitar todas essas verdades sobre você é que a felicidade vai calmamente te abraçar, no dia a dia, na mensagem escondida no espelho, na mensagem no celular de madrugada pra dizer que te ama, na preocupação com o seu estado de espírito, e nessa entrelinha toda, você vai ser a pessoa mais feliz do mundo. Regue o seu quintal, plante nele, cuide dele, seja dono dele. Agora sente e convide seu amado para contempla-lo junto com você.

Rodrigo Lima Romano

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