Sobre mulheres que não são mero acaso

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Eu quero um rolê desses em que a gente sai no improviso; recém saídos do trabalho. Que a gente sente e eu coma um enroladinho de presunto e queijo pra disfarçar a janta que não aconteceu. Não sei o que você vai pedir, acho que só um suco. Coisas de mulher.

Depois de o queijo derretido estar frio no canto do prato, vou curtir se rolar um Led nas caixas de som – “Well it’s been a long time since I rock and rolled”. Você preferiria Maria Gadú, mas, porra, ela às vezes é chata. Led é mais legal hahah.

Durante esse som não vou te beijar e acabar logo com aquela timidez pairando dos dois lados. Ela não causa problema algum, aliás, é gostosa. A verdade é que primeiro eu quero é te engolir com os olhos. Eu gosto do clima que fica antes do primeiro beijo com a boca. Deixo claro que é com a boca porque tem olhar que é puro beijo.

Enquanto eu mexer nas suas mechas meio loiras, meio castanhas, vou beijar a sua mão. Do nada. Também do nada eu quero perguntar qual foi o melhor dia da sua vida. Certeza que você vai dizer ‘Ai, não sei. Deixa eu pensar’. Deixo. Também deixo o garçom servir o vinho que você comentou aquele dia no chat.

‘Um brinde ao melhor dia da sua vida’ – Eu digo; mesmo antes de você conseguir saber realmente qual foi esse dia.

O bar é maravilhoso. Não tem picanha no rechaud, mas tem Led, presunto, queijo e você. Não tem poltrona de couro, mas tem cadeira de plástico, galera de cabelo estiloso e seu nariz. Falar da sua boca é fácil, é poético, mas eu sou amarradão é no seu nariz. Eu adoro o fato de ele ser meio empinado e tem o seu piercing. Dei risada quando você disse: ‘Meu pai ficou uma semana sem falar comigo quando furei e já coloquei argolinha’. Claro, porra, você tinha 11 anos.

Dizem por aí que a gente identifica quando tem alguém especial na nossa frente. Eu acho isso uma grande mentira, por isso eu vou criar nosso destino e te beijar. Não deixo essa história por conta de ninguém que não seja você e eu. Ninguém é especial antes de ter história. Amor se constrói, não cai da nave.

Quando eu falar uma besteira qualquer pra darmos risada, você dirá que sou louco. Devo ser, mas ainda conservo a habilidade de mudar de assunto quando vejo que rolou uma tensão no ar. Interrompo assunto de morte e doença comentando sobre meu sonho de criança de colecionar pombos. Não que morte e doença não sejam assuntos importantes, mas é que quero um dia seu para celebrarmos só os sorrisos, principalmente os seus.

A gente não percebe, mas entre nossos beijos, nossos vinhos e meus pombos já são duas da manhã. De uma terça-feira. ‘Hoje o tempo voa, amor, escorre pelas mãos…’
– Você canta bem – Eu digo.
– Você beija bem – Eu ouço.

Vou te pegar pela mão e gostar quando você propor de dividirmos a conta. Vou te abraçar a cintura enquanto falamos sobre débito, crédito e sobre o quanto você acha besteira esse negócio de Nota Fiscal Paulista. A caminho do carro eu paro nossos passos e aviso que preciso falar algo sério:
– Você é apaixonante. – Digo sem rodeios e sem imaginar que você interpretaria como canalhice
– Vai achando que tá fácil.
– É sério, olha seu olho, olha sua boc…
– Xiu… me beija.

E ali – na parede mesmo – eu te puxaria pra dentro da minha alma. Sua boca sendo apenas o lado de fora do seu desejo. A minha, apenas a parte externa de algo explodindo dentro de mim. Mãos, línguas, vozes, seu cabelo, seu ombro beijado, seu pescoço lambido. Você vai parar tudo e me puxar em direção ao carro.
– Que feio essas coisas no meio da rua.
– Feio é enxergar o ar quando estou indo pro trabalho, isso aqui é lindo. A noite é o que há – Mas minha poesia é interrompida pela sua mão leve e decidida.

A primeira parte das preliminares já teria rolado, afinal risada e beijo bom também são sexo. Portas trancadas, insulfilm salvador. No rádio aquele som, na nossa pele o suor escorreria sorrindo de tesão. Não te deixarei dormir após nosso primeiro ápice juntos.
– Preciso subir pra não capotar aqui mesmo – E sua voz seria baixinha ao falar isso.
– Dorme aqui, te acordo as 8h com geleia e torrada – Você sorriria me ouvindo fazer graça.

Antes de eu te dar um beijo de tchau você vai dizer:
– Olha, não sei bem qual foi o melhor dia da minha vida, mas temos um novo candidato.

E eu só teria uma resposta:
– Você acha que o boteco teria aquele vinho? Com tanta cadeira de plástico e parede chapiscada? Na-na-não. Aquele era só pra você.

E vou discordar se alguém disser que não deixo as coisas rolarem com naturalidade. Nada é mais natural do que se apaixonar. Mas é como eu disse lá em cima: minha história eu é que faço acontecer, o resto é acaso. E você está longe de ser um mero acaso.

Você eu chamo de meu destino.

Fábio Chap – escreve para o http://fabiochap.wordpress.com

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4 thoughts on “Sobre mulheres que não são mero acaso

  1. Mais um texto sensacional do Fábio,
    sem dúvidas é um dos meus autores prediletos aqui no site,
    Parabéns

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