Tão dolorido – e dramático – quanto uma dor de garganta

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E tudo acabou, feito a dor de garganta que começou no dia que fizemos sexo. Dor de garganta que veio do açaí gelado que usamos como pretexto pra nos encontramos e de tudo que eu não te disse. Não disse ‘quero ficar aqui, quero dormir aqui’, ‘desculpa, eu estava nervosa, preocupada com as coisas que não terminei em casa’, ‘você foi incrível e é uma delícia te ouvir gemendo’.

Também não disse ‘eu não quero namorar, quero só curtir com alguém bacana e que me respeite’, apesar de também sentir que diria ‘se me quiser, eu fico, todos os dias, pra sempre, só pra te ouvir me chamando de linda depois que fizemos amor’. É, talvez essa parte eu não devesse te dizer mesmo, até porque eu nem sei se isso é verdade. Nem sei se nossos jeitos batem, se os teus hábitos alimentares vão me deixar irritada, se nossos times de futebol nos farão brigar mais do que viajar para conhecer teus pais.

Eu, que li todos esses manuais de mulherzinha dizendo o que os homens pensam e querem e, acima de tudo que eu li sobre o universo XY, não durmo com vontade e faço tudo que meu coração pede, te pedi pra me ter em tua cama de novo. Pedi com todas as letras, sem rodeios. Porque mulher com frescura que não diz o que quer é muito chato, não é isso? E eu fui lá, dei a cara a tapa feito uma mulher decidida e transparente. E a minha transparência foi escurecendo, anuviando, virando fumaça, até eu não poder ver mais nada.

Xinguei, bati porta, quis queimar minhas calcinhas de renda e nunca mais beijar homem nenhum na minha vida. Porque eu sou assim, beijo e já quero um aconchego. Sem que saiba eu já planejei idas à praia, apresentei pra família, briguei, fiz sexo de reconciliação e escovei meus dentes de calcinha enquanto o outro fazia a barba. Minha cabeça toma a velocidade de um cometa e eu vou galgando passos pequenos um de cada vez, esperando teus movimentos, tuas decisões.

Fiquei aqui esperando não tive resposta. Procurei na minha mente os erros que eu cometi, as falhas no meu plano de amor perfeito. Demorei a entender que as coisas são assim mesmo, que precisamos deletar e seguir em frente mesmo sem as respostas. E quando a minha garganta parou de doer pela manhã, parei de me importar se iria te ver de novo, se precisaria dar de cara com teu semblante invadindo meu espaço, meu santuário protegido onde eu julguei que estaria livre do teu olhar. Parei de achar problema as praias, os carros iguais ao teu, os copos de açaí.

Eu ainda quero tudo de novo, e cada vez mais forte. Mas não precisa ser agora não, pode ser quando te der vontade, porque até lá eu encontrarei alguém que o gemido me excite tanto quanto contigo e que também não ligue o ar condicionado do carro por respeito a mim. Até lá eu vou procurando outros corpos e outras barbas que me deixem com o queixo machucado. Mas mesmo assim vou manter teu espaço intacto, porque, afinal de contas, a gente já casou e ninguém sabe.

Marina Oliveira

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