Sobre este rio que todos vão atravessar um dia

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Não é só a decepção e a desilusão; é aquele sentimento de que em algum ponto da história alguém vendou o seu olho, e como um completo cego você caminhou rindo, maravilhosamente extasiado para o abismo. “Como eu não pude ver?”. Aparecem todos os momentos, como num filme em slowmotion na sua cabeça, e você repassa cada milésimo de segundo repensando cada mensagem no celular, cada abraço, cada carinho, a mão em cima da mão… “não é possível que tenha sido mentira..”. Você está no primeiro estágio: a negação.

Não fosse isso suficiente, o amor consegue deixar uma marca cravada em você, como um grande “A” em escarlate na sua cara, e assim como com um alvo ambulante, todos notam a sua desilusão. “Aconteceu algo com você?” – eles dizem – e você responde “É só uma dor de cabeça.”. Você queria que fosse, mas na verdade parece que existe um abutre no seu estômago te corroendo ao poucos. Não importa quão azul o céu outonal esteja, ou quantas flores nascem e morrem na droga da floresta tropical. Seria necessário um buraco de 1 milhão de metros multiplicado pelo infinito pra te caber. Você começa a pensar que daria tudo para não sentir aquilo. “Por favor, alguém troca de vida comigo?”. Você está no segundo estágio: a barganha.

Os dias então ficam cada vez mais cinzentos. Você perdeu a vontade de comer e não interessa se o seu episódio de Friends predileto está passando. Você dorme chorando e acorda chorando (e chora durante esse intervalo também). Você não sabe explicar o porquê, mas dentro de você tem um buraco negro enorme, sugando qualquer tentativa sua de voltar a ser alguém de novo. É como se em algum ponto disso tudo as coisas perdessem o sentido real que elas tem e você caminha em uma velocidade totalmente diferente das outras pessoas. Todos os livros da Virginia Woof, comportamento do Rimbauld, e as músicas do Radiohead fazem sentido na sua cabeça. Ninguém pode entender o tamanho da escuridão onde você vive. Você foi pro limbro da sua existência. A vida agora é monocromática. Você está no terceiro estágio: a depressão.

Um dia você acorda e parece que um demônio de 10.000 anos adormecido tomou conta do seu bom senso. Você se sente capaz de beber tequila as 7 da manhã e trabalhar por 18 horas seguidas em uma construção. “Como eu não pude enxergar, meu Deus, os sinais eram tão claros!” Não existe uma droga de livro de auto-ajuda que consiga exprimir o que você sente. Você tem raiva dos seus amigos. Alguns deles minimizam a sua dor como uma mera ‘frescura’, e ninguém sabe o que se passa de fato dentro da sua cabeça. Alguém imprudentemente revoltado nasceu dentro de você e você nem sabia que podia sentir tanta raiva de você mesmo em somente um dia. Se fosse possível você vomitaria em cada uma das pessoas as suas insignificâncias, porquê você não consegue enxergar na verdade a sua própria, enquanto você brincava de casinha com alguém que fingia que te amava. Você está no quarto estágio: a raiva.

Tudo depende de você, afinal a vida não pára porque de repente alguém decidiu te fazer se sentir um nada. A vida está lá implacável, te mandando sorrir, te mandando ser um bom amigo, bom filho, bom pai, te mandando trabalhar, te mandando deixar os problemas na soleira da porta. Nesse momento você começa a mentir pra si mesmo; e você mente tão bem que tem existem aquelas semanas em que você consegue passar por elas sem se sentir um dejeto. Então chega o momento decisivo na sua vida em que você decide do que é feito. Aquela encruzilhada clássica onde você precisa escolher pra que lado virar, com a chance iminente de talvez nunca mais se recuperar completamente. Neste ponto alguns voltam para o estágio um. Por fraqueza, por medo, porque a solidão se tornou seu melhor amigo; porque a tristeza é de fato mais fácil e está ali, sempre a disposição como uma muleta pro seu próprio descaso, ou ainda porque ainda é muito difícil receber notícias daquela pessoa sem que as suas pernas tremam e você tenha vontade de vomitar.

Se você achava que após esse estágio você estaria refeito novamente…você está fazendo isso errado. Você já está bem, só não sabe disso. As pessoas se acostumaram a tratar a felicidade como um estágio de máximo de euforia e perfeição, quando na verdade isso é só um estado de espírito. A felicidade acontece entre esses momentos, quando a gente não está bancando o ingrato com a vida e está provavelmente em letargia tentando se encaixar no meio dessa confusão chamada viver. Acorda! Você tem pessoas que se importam com você, e provavelmente você nem notou as mensagens e sinais que essas pessoa te enviaram. Enquanto você decide bancar a heroína/herói do filme, a sua vida está passando diante de você. Se você notou isso, parabéns.. você está no quinto estágio: a aceitação, agora levante e vá viver.

“You have five minutes to wallow in the delicious misery. Enjoy It. Embrace It. Discard It… and proceed.”

Rodrigo Lima Romano

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