Manual quase-prático para o amor

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Tem gente ganhando muito dinheiro com isso, mas o meu manual é de graça. E isso já diz tudo, mas atenção: Querer preencher o espaço vazio, esse aí, do seu lado no cinema, ou o da cadeira em frente no restaurante, o do “cadê o namorado(a)?” na festa de amigos e familiares, é uma motivação honesta e urgente para o amor, no entanto, não garante resultados promissores. Num mundo onde só se é feliz estando obrigatoriamente a dois, aprender a andar na própria companhia é uma revolução necessária.

Disse que o manual é de graça porque o amor também o é, quer dizer, mais ou menos, é preciso pagar pelo amor: tempo, energia, disposição, as vezes dinheiro mesmo, então fica melhor dito assim: o amor é imponderável. Não é fruto de um cálculo, de uma jogada, cuidar do próprio jardim pode só significar que você terá um jardim lindo para curtir sozinho (a). Porque o amor é dom, é graça, milagre de duas existências que se sabem ao encontrar uma à outra (claro, isso depois de nuas, a nudez é essencial no amor). Pode acontecer ou não. Por isso esqueça o “trago a pessoa amada em três dias”: horas, prazos, cronogramas, o amor é, normalmente avesso à burocracia. É preciso também ter uma estratégia, nem que seja a minha que consiste em não ter estratégia. Ah, é fundamental não ter medo do ridículo, ele e o amor são vizinhos.

Pode-se arranjar alguém para passar os dias difíceis, ter namorado, marido, bodas de prata e casa na praia e nada de amor. O amor é voluntarioso, se dá quando, onde, como e a quem ele queira. Sem méritos, dever de casa feito, nota 10 na redação. Acontece também com os chatos, com as feias, a miss universo, Einstein e com os que juram que não o querem.

Eu não sei nada sobre o amor e acabou que este não é a porra de um manual quase-prático nenhum. Não sei nada, mas desconfio:

1) Deve-se estar empenhado em ser você mesmo, de algum modo ser fiel a si – seja lá o que isso signifique em cada caso.
2) É preciso saber minimamente o que não se quer e não se aferrar rigidamente a isso.
3) Se o amor nos testa, enviando-nos ao longo de anos sem-fim: quase-amor, falso-amor, carência com máscara de carnaval de amor, é preciso rir de si mesmo, chorar no fim da noite bebendo uma vodka suja qualquer e estar recuperado dali a algum tempo ou mentir tão bem que se está que você mesmo acredite nisso.
4) Reconciliar-se com o instante. Ter apaziguado o momento fugidio, saber desfrutar da mágica do “agora”, saborear o efeito inigualável do que uma manhã de sol ou tarde de chuva fina e terra fresca causam nos sentidos.

Dizem que terra úmida e chuva fresca fazem um bem danado para o amor.

Rafa – http://tantacoisatantacoisa.blogspot.pt/

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