Pra se navegar um trem a velas desgovernado

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Um pescador em seu barco a navegar.
É ele quem se entrega ao barco?
Às águas? Ao mar?

Não era meu, não era do meu vizinho e eu não me lembro o nome de alguém a quem pertencia.  Tinha importância a alguém, e isso bastava.
Quando você olha pra ele -nos olhos- logo sabe(sente), que -sempre que pode- faz o que fez…

Eu tenho os meus limites, os meus muros, minha capas, cascas, amarras, cascos e tenho um receio tremendo de parecer pelada demais por dentro. Mas ontem um amigo de uma sensibilidade fantástica traduziu toda a explicação em algumas poucas palavras: ‘Sentimento (no caso ele disse amor) não tem rédeas, é um trem desgovernado que vai pra onde o vento leva’.

Sopra, leva, traz, balança o que houver, vira de ponta cabeça, faz turbilhão, às vezes tudo isso em silêncio. Silêncio que depois nos cabe dar nome, rebocar de palavra, de entendimento, enquadramento, definição. Silêncio que vira falação, às vezes ainda em silêncio com relação ao de fora. Então, começam as escolhas. Tudo simultaneamente, claro, não tem tempo pra pensar, é isso de escolher o tempo todo. E, de repente, algumas forças transformam uma porção de dúvidas em assertividade.

Sim, eu escolho estar junto com você, mas se você não escolher estar comigo, tudo bem. Nascemos um para o outro sendo dois, nossa fusão é soma e, a essência do nosso nós é você e sou eu, com tudo o que trazemos.
Não é indiferença, é compreensão.

Cada tato é capaz de dizer três milhões de coisas, e diz.
Cada milímetro de pele que encosta no milímetro de pele dele envia mensagens instantâneas a todas as partes do corpo.
Tudo é visível.

De olhos fechados ou abertos, tudo se clareia, de certo pela luz da alma que permeia aquele corpo, e com a luz dos caminhos que me constroem. E somos farol.
Somos uma história carinhosamente conturbada estampada na pele.
E somos construção, gozando da vida com a consciência estranha de que “nada se cria, nada de destrói; tudo se transforma”, sabendo que tudo o que temos é o agora e que ele não dura mais do que o tempo de um agora,
imensurável.

O novo, misto de receio e anseio.
Até o que se repete ainda é novo.

Não vemos o mundo com os mesmos olhos, não sentimos com o mesmo ser, não pensamos com os mesmos neurônios, mas nos entendemos sutilmente, cada um por si, com o outro, no outro.

O desejo antitético de algo leve, que pudesse se dotar de uma intensidade de me tirar do sério, não é mais apenas um desejo, é palpável e transcendente, metafísico. Tangível e findo, ao mesmo tempo.

Que seja só um jogo bobo de palavras, mas o que há é pertencimento e não posse. Pode-se pertencer livremente onde quer que se sinta bem. Liberdade é caber sem poda.
É abrir a porta emperrada com jeito e não explosão. E, lá dentro, explodir em flores.

Um trem desgovernado também é escolha. Pode-se pular a qualquer momento ou se entregar à jornada pelo controle das velas, amigar-se ao vento, compreendê-lo.
Uma rosa dos ventos não me diz para onde ir, a escolha é minha.
O tempo todo.

Não era meu, não era do meu vizinho e eu não me lembro o nome de alguém a quem pertencia.  Tinha importância a alguém, e isso bastava.
Quando você olha pra ele -nos olhos- logo sabe(sente), que -sempre que pode- faz o que fez.

A imagem dele levantando aquele vasinho vai ser sempre uma força para a assertividade da escolha de me entregar ao trem a velas desgovernado e dirigi-lo respeitosamente.

Marianna Ambrósio

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