Epitáfio

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Estou atrasada. Mas não me refiro a nós dois ou isso que mesmo com o passar dos anos ainda insistimos em chamar de nós dois. Me refiro ao meu voo, que sai em trinta minutos e ainda digito este texto torta no táxi rumo ao aeroporto. Há muito não escrevo uma carta, dessas com direito a selo e tudo o mais, depositadas na caixa de correio por aquele carteiro camarada da tua rua (me conte se ele ainda usa shampoo para calvície? Bizarro). Bom, te devo satisfações pela forma como saí correndo do velório do pai da Gabi – e como não sou capaz de completar um telefonema ou bater em sua porta, restam apenas palavras apressadas em Arial 12.

Eu também fiquei arrasada, se quer saber. Mas não me refiro à morte de um cara que nunca deu a mínima para a filha – aquele merda. Me refiro a te encontrar vestindo terno e gravata skinny (que cena), em um cemitério estranho e impessoal, depois de seis anos sem notícias. Sei que você tocou o canto da minha boca de propósito quando se aproximou e disse “ei, pequena” – como se tivéssemos nos visto ontem. E aí me abraçou como se abraça uma namorada legítima: demoradamente com vontade. E por um momento, quando tocamos as mãos com força disfarçadamente olhando aquele caixão, pensei que pudéssemos não ter envelhecido. Aí te olhei de esguelha e constatei que quem segurava a minha mão era um estranho por quem tenho total tendência para me apaixonar.

Não sei nada de você. Só que ainda provocamos faíscas raras um no outro.

É engraçado porque já nos desencontramos tanto por agir através desses impulsos inesperados, por viver sentimentos que não sabemos comportar no dicionário, por querer o mundo inteiro de uma vez só, por esse suor relatando ansiedade entre nossos dedos cruzados. E, hoje, no final de todas as contas e mais uma volta sacana do mundo, o que  somos nós, afinal? Não somos amigos nem colegas, muito menos amantes ou namorados: somos só saudade. Saudade de um tempo que não sabemos em qual parte da história encaixar. Foi por isso que inventei uma cólica e saí desembestada empurrando familiares e um funcionário da funerária sem tempo para questionamentos.

Para não viver tudo outra vez.

O amor era a coisa mais importante para você – e pelo calor da sua boca, continua sendo. Uma inevitabilidade, na sua própria definição. Mas pra mim, amor nunca passou de um luxo. Quase uma utopia, uma fase que a gente se permite desfrutar quando tudo parece ir bem pelo acaso de sugestões astrológicas e milimétricas do destino. Eu simplesmente não queria dedicatórias eloquentes. Eu queria gostos diferentes, experiências atraentes e um dia quem sabe uma casinha de sapê meio Paula Toller e coisa e tal. Não foi bem por aí. Me mudei para São Paulo, quase tive um filho, inaugurei exposições de fotografia aplaudidinhas pela imprensa e finalmente comprei um Labrador para o meu jardim (sim, eu tive um jardim em uma das cidades mais concretadas do mundo).

Mas nem tudo são flores. Veja bem: hoje estou melhor, sem a obrigação de corresponder ao seu tom exagerado de gostar de alguém pra valer, mas ainda é como se faltasse um pedaço intrigante da minha história que não aprendi a lidar: a parte que eu chamo de você. É dessa forma que as pessoas se sentem quando têm um grande amor ou qualquer coisa assim na vida para guardar, não é? Grande amor, risos. Eu detesto essa expressão porque me sinto presa a um sentimento que não escolhi e não acredito com toda essa fé católica. Eu sou não praticante do amor. Mas às vezes me rendo a uma oração em tempos de desespero.

É por isso que estou te escrevendo.

Covarde, não é? Entendo. Mas é isso que eu sou. Covarde. “A vida é feita de coragem. Coragem, amor”. Ainda posso te ouvir fazendo juras para um sentimento que nunca teve razão ou propriedade de certeza. O problema é que a minha coragem tem mais medo do que vontade de existir, meu bem. Lembrar da nossa história é querer apagar um câncer onipresente que ressuscita de tempos em tempos para me testar. É não conseguir rebobinar um sonho que foi deletado pelo nascer do dia sem pedir a sua permissão. É tentar ficar em pé em uma canoa em meio à tempestade do alto mar. Amor é coisa de gente simples como você: gente que manifesta mais atitudes do que dramas.

Espero que depois de ler tudo isso você continue repetindo que não se importa com os meus muros de Berlim. Por que mesmo com tantos desencontros e sacanagens, se eu tivesse que escrever um epitáfio para nós dois, mandaria grafar em letras claras e pontuais: isso não termina aqui. A melhor sensação do mundo, sem mais. Preciso ir porque embarco agora, é, neste minuto mesmo. Sim, eu cheguei a tempo. Só não sei quando volto.

Com carinho,

Ela que ainda atende pelo sobrenome de sua.

P.S.: Deixa a vida existir do jeito dela. Deixa os inícios, meios e fins desatarem os seus próprios nós, amor.

Lucas Simões

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