Que seja novo

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Que a gente vista a camisa dos nossos sonhos, então.

E não tenha medo de escancarar as -ou nas- nossas caras, os pensamentos e sentimentos. Não que a gente seja vulnerável demais, a qualquer tudo. Ninguém precisa se entregar demais. Mas também, ninguém precisa querer dizer o que qualquer alguém precisa fazer ou ser. Acho que isso é mais uma auto repreensão, que coloco no plural pra não assumir solidões.

Não seremos os melhores amigos de todo mundo, não seremos o primeiro a saber de tudo, não seremos o porto seguro de todas as pessoas que conhecemos. E, se esse for o nosso objetivo, acho que nos perdemos no caminho(nos? caminhos?). Posso estar geometricamente errada e parecer trouxa, mas acho que destaque é consequência e não objetivo. Quando é a meta me dá uma impressão assustadora de um tipo de subversão perigosa.

Não pretendo inocência quando uso verbos do tipo “assustar”, não sou inocente. Meus crimes são escrachados, subverti uma série de coisas, gosto de acreditar no que existe além do certo e do errado, gosto de acreditar nas explosões de possibilidades do encontro de ambos. Encontros antitéticos me encantam e parecem gerar expansões, experiências, construções… Não sou inocente ou vítima, sou trilhares de consequências de milhares de escolhas do tempo todo e, sim, confesso já ter desejado -e até tentado- fugir de ser, viver e assumir determinadas destas consequências, mas elas sempre se fizeram -e se fazem- mais fortes.

Dei muita liberdade para que os sentimentos (ou qualquer coisa que venha de dentro e que eu não saiba qual palavra usar para descrever) fizessem comigo -e de mim- as suas próprias e desordenadas vontades. Fui, algumas vezes, com um cão. Um cão, um macaco, um peixe. Racionalidade (como humanamente conhecemos) escassa. E talvez as pessoas nasceram para agirem como pessoas e os outros animais como eles. Talvez eu tenha destoado muito e pisado na bola em proporções maiores do que aceitável. E talvez esteja escrevendo isso por uma tosquice que me faz não saber como me desculpar, talvez eu nem queira me desculpar, a culpa é minha mesmo e levo comigo, acho que é só uma necessidade besta de expor que houve um desvio e que a intenção não era pisar na bola, acho que geralmente não é.

Toda estrela parece cadente de olhos molhados. Eu tava olhando os olhos miúdos da minha avó, que diziam oito milhões de coisas, que geralmente em silêncio. Acho que o medo de envelhecer faz com que a gente envelheça de um jeito maluco. Na verdade não acho que seja o medo de envelhecer, mas uma porção de medos macumunados do desconhecido. Mas não condeno o medo também, acredito que pode ser, ao mesmo tempo, proteção e incentivo, inventivo. A gente inventa formas de ser maior do que ele, cria, imagina, cresce, vive. Uma das melhores sensações que conheço é a de ser maior do que o medo.

O Sol vai nascer amanhã feito tem nascido todos os dias, é claro. No meio de um monte de nuvens, escondido, ou se exibindo numa pureza azul, da cor que a gente quiser ver.

Onde é que estamos com a cabeça? Onde é que estávamos? Onde é que eu estou? Tem tanto pra ser feito todo dia, tanto pra viver, tanto pra ser próprio ao invés de ser alheio. E estou justamente sendo alheia, expondo qualquer coisa que deveria ser só minha, qualquer pensamento que já existia dentro de mim mesmo antes de se escancarar num papel, numa tela, num olhar qualquer. Inventaram um monte de coisas pra gente disfarçar solidão, pra gente se mostrar.

E que eu vista a camisa dos meus sonhos, então. E 365 nasceres e pores de Sol, conjugados no que chamamos de 2013, façam-me mais essência e vontade e movimento e que no ano que vem eu não precise me expor pra me sentir inclusa, que eu de a cara a tapa sem precisar me justificar por que.

Feliz próximos acordares.

Marianna Ambrósio

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