Plano B

E lá estou eu outra vez, agarrada a um cara numa cama de solteiro, com o corpo estendido para um lado só meu do colchão. Continuo de olhos abertos, pregados num ponto fixo da parede descascada do quarto… Longe, atraída pelas marcas empoeiradas de durex que há algumas semanas ainda prendiam fotos, guardanapos com borras sentimentais de café e outras coisas não-importantes agora. “Everybody’s gotta learn sometime”. Eu quero água, a habilidade de levantar da cama sem fazer barulhos no assoalho e desculpas melhores da próxima vez que pensar em fugir de alguém no meio da noite assim, à procura da escadaria de incêndio com uma placa luminosa indicando a saída.

Meus pretextos fizeram de mim o pedaço flutuante de gente que eu sou hoje. Desculpas sinceras – é como eu chamo os artifícios que usei para ir embora de tanta gente. Minha cabeça é fraca e meu coração meio bandido por causa das cápsulas e rostos que fui tirando e desconstruindo da minha vida a cada nova expectativa e erro de cálculo. Desde pequena acredito que pra sempre é apenas uma certeza com limites que não dão para enxergar ou tocar. Mas que ainda assim estão lá, prontos para dar as caras uma hora qualquer. Fodi vários romances explicando essa teoria. Embarcando em um teatro de sobrevivência repleto de máscaras, encenado ao Deus dará, do jeito que o Diabo gosta.

O problema é que eu me acostumei com as mudanças e todas as filosofias baratas de novos ares, bola pra frente e sorriso forçado no rosto que essas representações me trouxeram – me envolvi demais com a liberdade, aquela loucura nos textos do Jack Kerouac, sexo, drogas e Rolling Stones. Até me tornar uma moça de vinte e sete anos de idade com apartamento próprio e promoção à vista no escritório, foram muitos cortes de cabelo diferentes e uma coleção de pequenos grandes amores criados em um aquário de aflições movimentado. Mas agora, sentada na bancada da cozinha semi-nua-e-bêbada por uma garrafa de vinho promocional de supermercado, volto a pensar se existiu mesmo um plano pra mim e em qual parte dele eu abandonei minha metade da laranja. Aperto um baseado. Apago tudo.

Lembro apenas que foi como se uma caixinha de fósforos tivesse parado de tocar dentro de mim e eu tivesse me perdido do ritmo comum da multidão. Eu não estava mais sambando, nem ligando tanto para como as coisas iriam seguir – com você, sem mim. Aí te vi ali, parado na esquina, do meu lado, com as mãos no bolso, sem conseguir te enxergar. Enxergar do jeito que eu te vi centenas de vezes pela primeira vez, sabe? Aquela forma de existir que revirava minhas gavetas e dava conta de tudo. E eu gostava… gosto, sabe como é, tanto de você que. Só quis nunca mais passar por esse tipo de amor. Esse, que não aceita “não” como resposta e permanece no mesmo lugar – não importa o quanto você mude. Nem quantos finais se repitam. Absolutamente nunca.

Me assusta pensar que uma coisa nasceu para não morrer. Tanto quanto me conforta e me ilude por duas horas e meia de insônia – enquanto eu cheguei a pensar que não retomaria os meus sentidos de volta. Sei que não vou voltar para a cama hoje, e provavelmente o cara que dorme engrenado no meu quarto vai bater no meu pé amanhã e me acordar com as pernas tortas no sofá. Então, vou evitar beijos de bom dia exibindo um mau humor sacado, passar um café novo e ficar olhando a porta durante muito tempo. Aí depois, é sempre depois. As mesmas desculpas espontâneas para todos os fins. Mentiras sinceras, eu diria – mas ainda assim, mentiras. As pessoas se separam por não suportarem mais a possibilidade cada vez mais viva de acabarem infelizes, de mãos dadas num beco sem saída, presas por motivo nenhum. Elas só demoram para entender isso.

Quanto a você. Eu ainda vou continuar pensando em você pelos próximos dias, como se mais um término com o milésimo cara estranho que conheço fosse outro sinal acendendo entre nós dois para uma mudança. Sete números no visor de um celular, cursor piscando na caixa de texto do seu endereço de e-mail, não sei como começar. Expectativas insanas, let it be. Porque a única coisa que aprendi te amando sem pensar foi que ainda valeria a pena – esse é o perigo. Às vezes eu imagino como você se sente, mora, come, trabalha e anda pela rua. Te procuro nas imagens embaçadas que tenho das nossas mãos e pés juntos embaixo de lençóis grandes de casal, mas não sou mais capaz de encontrar o fio da meada. Você é meu em algum lugar em que eu estive, mas nunca mais consegui voltar.

 Lucas Simões

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