Pecando pelo excesso

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Daniela Mercury que nada. A cor dessa cidade sou eu. O azul do céu ensolarado, o amarelo da lua cheia na noite caliente, o vermelho do sangue na chacina da zona leste, o verde dos arvoredos em extinção na cidade grande, o cinza dos arranha-céus, o laranja dos faróis dos carros no engarrafamento quilométrico – há um quê de mim em tudo isso. Para o bem ou para o mal, meu arco-íris está aí, esbanjando neon. Ei, você, seja bem-vindo e venha dar a sua pincelada – só não procure na minha aquarela um azul calcinha para colorir a sua indecisão. Não trabalhamos com tons pastel, e nem há previsão de quando chega o primeiro lote.

Maldito seja o artista plástico avarento que misturou água ao magenta pra tinta render mais, e assim, num toque de engano, criou o tom pastel. A paleta de tons pastel é um incentivo à mornidão e um prato cheio para a paumolescência. A bandeira da paumolescência, inclusive, é listrada de verde-musgo, azul calcinha, rosa bebê e amarelinho. E é hasteada por gente que não faz ideia do que quer. Gente que não caga, mas que também não sai da moita, gente que não faz nem fá nem fu, que é de centro-direita, que é eclética e que se arrepende só do que não fez. Atriz, modelo e apresentadora que não dá na primeira noite, que não sorri nas fotos para amenizar as rugas, que não mistura destilado e fermentado e que paga cem paus para tatuar uma estrelinha vazada na nuca. Gente que não sabe se não, mas também não tem certeza que sim. Enfim, gente tom pastel.

E é a elas que eu rogo: mais intensidade, por favor. Suspiros mais profundos, dedadas mais profundas, penetrações mais profundas. Sorrisos mais espontâneos, gemidos mais espontâneos, piadas mais espontâneas. Cores mais vivas, lembranças mais vivas, sofrimentos mais vivos. Céus mais azuis, rosas mais rosas, corações mais vermelhos. Meu coração é vermelho, e espero que o seu também seja, porque o que eu conheço de gente com coração nude não tá escrito… Que prefere não se envolver na iminência de sentir dor. Ou que até se envolve, mas que guarda segredo – afinal, discrição é virtude da nobreza. E que quanto mais conhece os humanos, mais se apaixona pelo próprio yorkshire – afinal, ele de lacinho fica mais bonitinho e mais digno do que o menino que faz malabares para ganhar a vida no cruzamento da Ipiranga com a Avenida São João.

Glorinha Kalil que me desculpe, mas prefiro pecar pelo excesso. De cores, de amores, de entrega, de álcool, de sal, de pimenta, de gordura trans. Porque se sobrar, eu doo, vendo, leiloo, empresto, negocio. Até tempero a sua comida. Agora, se faltar, corre o risco de o saleiro já estar vazio. Por isso, caros amigos tom pastel, convivam com o meu neon. Oito dias pro fim do mundo e vocês aí, se fazendo de rogados? Dá licença.

Bruna Grotti

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