Algo mais

Você sabe que eu andei meio estranho. Coisa idiota, bobeira. Medo da vida, de gente preenchendo os lugares, de carros avançando o sinal vermelho no meio da rua, de olhares entre as bolas de luzes míopes da cidade misturados às mesas dos bares prometendo exatamente o que? Eu tentei te ligar, quer dizer, meio que tentei. Chamou duas ou três vezes do outro lado, desisti de esperar. Coloquei um casaco, apaguei as luzes, desci as escadas e vim fazer uma ronda no quarteirão e aproveitar para comprar um cigarro picado e ver se o supermercado ainda estava aberto e inventar mais desculpas para tentar descobrir o que quero de você – ou acho que quero de você.

Normalmente eu dou os primeiros passos certos. Me apaixono. Me faço apaixonar. Não que eu seja o cara mais interessante nem o mais apaixonante do mundo. Mas sentimento é uma coisa meio contagiante, já viu? Você fica por ali muito perto e, vai ver, acaba pegando. Como o cheiro específico de uma pele ou o refrão repetido de uma música não tão importante guardada na cabeça. Acontece. Depois, quando tudo parece certo e seguro e até promissor, veja só você, acabo fugindo no meio da noite sem deixar explicações ou recados na geladeira. É assim que eu saio de fininho de festas e corações que eu mesmo ofereci aos outros. É assim que eu antecipo o final dos começos, geralmente quando vejo que as coisas cresceram mais em expectativas do que em realizações.

Uma vez você me perguntou o que eu queria de uma mulher. Estávamos sentados numa mesinha de canto de um desses bares escuros, pequenos e excitantes, um de frente para o outro, num desses encontros de quarta-feira à noite em que as pessoas riem umas para as outras, tocam as mãos, pedem drinks, acendem seus cigarros e abusam de todas as insinuações possíveis. Muito bem, eu respondi que queria uma mulher como você. Pá. Na lata. Um clichê automático que saltou da minha boca instantaneamente. Não era totalmente verdade. Não era totalmente mentira. Era só o que era naquele instante e, pelo menos, desde quando resolvi te ter pra mim.

Mas aí você me veio com aquela conversa de cachorros e discos do U2, emprego perfeito, alergias em comum, filmes do Almodóvar e quantos filhos mesmo? Quando na verdade o que eu queria era só uma trepada legal, um carinho nas pernas, um chá de canela quente servido em duas xícaras, umas risadas na cama à toa e alguma coisa como corações acelerados no silêncio sem pensar em coisa alguma. Nada de perguntas-padrão ou planinhos afobados prevendo uma felicidade de cinema. Mas não falei nada. Voltei pra casa segurando sua mão com os dedos abertos, como se não importasse se eles se soltassem ou se perdessem. Eu não queria agarrar futuro nenhum. Por que eu não tinha sequer um agora. Entende?

Você ainda está confusa e eu posso te ver de meias no sofá pensando: meu deus, e essas voltas que as pessoas te dão enquanto o mundo parecia rodar tão bem para o lado certo? Pode isso, doutor? Pode sim, minha filha, eu te respondo como se conhecesse mais sobre o-que-é-sentir-alguma-coisa-por-alguém do que você pode imaginar. Nem sempre fui alheio a sofrer. Eu tive medo da primeira vez. Da segunda também. Chorei ouvindo “Baby I Love Your Way” sábado à noite, vi aquela Fulana que eu chamava de amor usar as minhas palavras mágicas com outro cara um mês depois daquela conversa de “é, não deu, chegamos ao fim da linha, eu acho”, fui pego no contrapé, eu diria. Enfim, também cheguei àquela porra de fundo de poço por alguém. Depois, acho que me acostumei ao fato de que as pessoas não dão conta de todas as promessas que te fazem. Principalmente quando falam em pra sempre e nunca mais – duas expressões facilmente solúveis como guaraná em pó.

Não tem muito o que explicar. Eu posso dar voltas e mais voltas sem sair do lugar que você me colocou projetado para durar. Sei lá. A gente precisa é entender que as pessoas por quem nos apaixonamos não existem mais. Notícia velha, cara: as pessoas mudam: de opinião, corte de cabelo, endereço, telefone e sentimentos. E nem sempre escolhem isso ou sabem identificar o ponto final. Afinal, todos os romances são repletos deles espalhados em pontos de vistas diferentes. Talvez seja loucura tentar entender como as suas chaves não servem mais para abrir a porta de uma casa que era sua. Mas é assim que as coisas são, não é? Na prática, seus pés vão continuar sentido frio à noite, meu telefone vai continuar caindo na secretária eletrônica, nossas línguas vão continuar com vontade uma da outra sem falar o mesmo idioma. Até um dia desses.

Por que sempre chega um dia desses. Uma hora ou outra eu vou te encontrar na rua e vamos trocar beijos no rosto e perguntar como foi a semana ou comentar sobre a mudança do clima, essas coisas, você sabe, as mãos fora de lugar, os olhos inquietos, as cabeças balançando. E depois eu vou olhar pra trás e te ver dobrar a esquina sem saber se você foi porque quis ou porque eu deixei. Talvez não faça muita diferença no final das contas, se você parar pra pensar que uma coisa é consequência da outra. Mas não importa tanto agora, importa? Como todas as outras pessoas, somos só dois estranhos tentando ser felizes por aí de novo, com ou sem alguém. Cada um a sua maneira.

Lucas Simões

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