Pra já

Eu demorei para entender que nós não éramos um casal que se dava bem no meio do público, em aniversários estranhos e barzinhos a dois. Na verdade, às vezes nem éramos um casal. As pessoas te olhavam, me olhavam e ficavam procurando alguma coisa que eu nunca achei. Talvez o marco que separasse o teu sentimento do meu, ou alguma falha no nosso jeitinho de ficar se completando em pequenas coisas: como o carinho que eu te fazia no lóbulo da orelha esquerda, arrancando tremiliques das tuas pernas e dos teus dentes caninos que marcavam a minha pele como tatuagens invisíveis.

Felicidade e amor nem sempre andam juntos: por isso eu digo que em certos momentos fomos um susto improvável de mãos dadas que pouca gente ao redor sabia definir, reconhecer e aceitar. Pelo menos por algum tempo que eu não posso precisar ao certo a duração e às-vezes-quase-sempre sinto como se ainda fizesse parte do hoje. É normal? Me diz. É normal a nossa mania de ser um pedaço um do outro independente das burradas que você fez e das respostas que eu nunca vou te dar? Pela sua cara de agora lendo essas linhas, nem precisa responder. Você me entende, só não falamos a mesma língua.

Ainda bem que existe o sexo. Uma simplificação de todos os problemas. E o nosso, baby, ah, parecia um ritual que a gente tinha inventado neste século para invadir um ao outro em madrugadas tardias de calor. Uma maneira rara de aprimorar o amor. Porque melhor do que o contorno da sua boca, o seu cheiro Teu, sua bunda, coxas, seios expostos para fora do sutiã meia taça e gemidinhas baixas pra gozar, só sua mania de querer dormir sempre de conchinha sufocada no instante-agora de ser feliz por nada, no meio de um silêncio que várias vezes fez a gente confundir sonho com realidade. Talvez aí, a graça de todo esse frio na barriga sem explicação.

Acho que não me apaixonei por você, como todo mundo diz. Eu simplesmente te encontrei. E quando a gente reconhece alguém assim, não se preocupa tanto como é que a coisa vai chamar. Nem com a dúvida em aceitar ou recusar convites que possam acabar na cama ou nunca mais. Eu mesmo te olhei por mais de dois minutos seguidos naquele nosso encontro específico depois de um fim. Não sabia se ia embora contigo ou de você. Pra sua casa ou pra nossa? Quanto tempo vamos ficar? Me liga? Até? Eu não soube responder. E não me deu desespero. Tá, só um pouco.

No início e no final de todas as contas, acredito que o importante mesmo é andar de mãos dadas: um cuidado que nem todos os casais têm ao sair de uma festa cheia, entrar em um restaurante legal ou mesmo adormecer lado a lado de vez em quando para que os dedos enlaçados ontem possam fazer o papel do “bom dia” de amanhã. Aquele retrato que sempre acontecia nos nossos momentos mais coloridos ou cinzas. Inevitavelmente assim, abraçados pela ponta das mãos.

É por isso que eu sempre raspos os dedos nos teus antes chegar ou partir de qualquer lugar, e considero isso mais do que um beijo, um pedido de casamento ou mesmo uma declaração cheia de letras e eu te amo publicitário. E se eu te falar que o meu coração acelera como nunca quando me vejo disposto nessa simplicidade toda de arrepios por toques e tudo o mais? Não entendo muito sobre conceito de sentimentos e você sabe, mas amor ou a gente acredita ou inventa. Eu acredito nessa invenção e não nego o que for endereçado a mim, se desde agora eu puder matar a ansiedade para quando tudo chegar.

Aquele beijo, o de ontem mesmo.
P.S.: “E até quem me vê lendo jornal
Na fila do pão, sabe que eu te encontrei”.
(R. Amarante, pra te acalmar).

Lucas Simões

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