Carta

Eu pensei em começar escrevendo esse texto com alguma frase legal, de algum escritor legal, ou com algum trecho sem pé nem cabeça, desses que a gente lê e coloca no perfil do orkut só pra dar uma idéia de ser alguém muito cult. Mas achei bem mais justo começar escrevendo sobre o fato de que eu não tenho a mínima idéia de como começar. Eu não sei o que te dizer. E eu não quero te convencer. Porque eu to com preguiça de fazer isso agora.

Eu cheguei a pensar que seria pra sempre. Porque mulher adora esse papo de “pra sempre”. Mas eu sabia que a sua mania de falar olhando para os lados e de sorrir fazendo barulho, mas sem mostrar os dentes, ia acabar com o pouco de paciência que ainda me resta sobre as pessoas e as coisas. E você sabe como é… O tempo vai colocando cada coisa no seu lugar, como o vento, que vai empurrando uma coisinha pra lá, outra pra cá, e quando a gente vai ver…

Eu fiquei um certo tempo falando feito Glória Kalil. Me torturando pra não falar usando os braços porque você dizia que isso era coisa de pobre. E que era brega a mania que eu tinha de emitir sonoridades quando encontrava as amigas nas festas. E dizia que meu perfume de gente chique e meu anel de strass não combinavam com gente que fala com os braços e apertava as amigas na bochecha.

Eu ficava imaginando a tua família, a tua irmã, os teus pais que vão à missa, e o teu melhor amigo que eu adoro tanto. E fiquei pensando que eu queria tanto aquilo pra mim… Só por um tempo, até eu entender de novo que as coisas podem ser boas. Mas aí eu entendi que na verdade eu estava gostando muito, sabe? Demais mesmo.

Da sua família, não de você.

Era chegada a hora de sair.

Eu estava gostando de tudo que tinha ao seu redor, não de você. Eu gostava da padaria que tinha perto da sua casa, dos seus amigos, dos seus discos, não de você.

Porque você tem vinte e poucos anos, a idade ideal pra ser um cego surtado que acha que felicidade total é uma festa Open Bar no final de semana ou andar por lugares badalados com o carro do pai e os bracinhos ajeitados pra fora.

Porque você usa uma sunga branca que é de envergonhar e paga a conta no restaurante sem olhar pro garçom, e isso – honestamente? – me irrita demais. Sabe?

E é claro que agora você surta no domingo à noite, porque domingo a noite é dia de todo idiota surtar. E você sente um frio na barriga e uma total certeza de que é mesmo um idiota. E aí você me liga e eu atendo com uma voz de “agora morre, seu babaca” [eu sei fazer essa voz como ninguém!] e digo um alô estilo o “Boa noite” de Fátima Bernardes e você chega a esquecer o que ia falar. E falo com uma voz que te faz lembrar o quanto você é mesmo um idiota. O quanto você achou o que tanto procurava e não soube lidar.

E eu faço tudo isso, não porque sou uma idiotinha louca do mundo moderno, mas porque queria muito que você aprendesse de uma vez por todas que o mundo não é o seu umbigo e, que se fosse, a sua burrice não caberia dentro dele.

E eu nem deveria te dizer nada, porque você tem mesmo vinte e poucos anos, joga vídeo game e se despede dizendo “beijo no coração” e isso me irrita numa potência absurda e angustiante.

Eu queria te dizer que sinto muito. Eu só queria. Porque na verdade eu não sinto nadinha de nada. Pena serve? Eu sei que você não gosta que sintam pena de você. Mas foi só o que eu consegui sentir, só pra te irritar.

Que tal?

Que tal agora eu dar gritinhos quando encontro amigas por aí? Hã? Eu sei que você odiava essa minha mania que agora eu faço em sua homenagem. Na verdade eu nem queria escrever tudo isso, mas eu achei que seria bem divertido saber que você leu esse texto enorme, todinho, e no fim chegou a uma conclusão terrível e óbvia: o idiota que ela fala no texto, sou eu!

Vanessa Pinho

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