Não aprendi a pertencer

Pode ser o medo de fazer parte de algo, o medo da longevidade, do continuar, estagnar.

Medo de congelar as idéias e permanecer intocável e insensível ao tempo.

Tenho medo de me pertencer demais, de me sentir segura demais no meu próprio senso comum.

Porque o melhor de viver é poder reconstruir e refazer sem nunca saber se é tarde demais, afinal ninguém pode prever o fim com exatidão. Então é sempre o risco, o desafio, que nos permite seguir e nos reinventarmos no caminho.

Olhar ao redor e perceber o conforto dos caminhos já trilhados não transcende o poder de se descobrir. Estar à frente de novas situações, se provar, provar as situações novas de peito aberto, sem preconceitos. Isso é tudo o que realmente levamos e o que deixamos da vida.

Sei que com a decisão de ser mutante carrego o ônus da falta de solidez nos relacionamentos, pois a pessoas tendem a ficar repetitivas e rotineiras com o passar dos dias. Por sorte tenho amigos que compartilham essa face de camaleão e nossas conversas jamais serão improdutivas. Porém esse esquivar-se da rotina se torna mais complicado se tratando de família e amores. Estes dois núcleos te impõem uma postura continuada e com menos flexibilidade.

Não é um erro, é uma decisão instintiva de permanência e proteção. Na família nos valemos do amor incondicional àqueles que são eternos e imutáveis no contexto de nossa história, porém os amores não são únicos e eternos.

Alimentou-se por muito tempo a idéia de casamento de uma vida toda, mas isso não pode ser possível sem a combinação perfeita dos pares. Porque nós mudamos durante o passar dos anos, aprendemos a apreciar arte, desgostamos ou enjoamos de coisas que nos fariam antes suspirar. Por esse motivo, a Pessoa que se compromete a atravessar os capítulos ao nosso lado teria que, como mágica, mudar na mesma freqüência. O que acredito ser quase impensável, pois se encontrar a outra parte da laranja já é complicado, imagina se resolvermos virar limões de uma hora para outra? Seria necessária uma sincronia perfeita! Não é impossível, e em muitas das vezes o que acontece é que toda vez que mudamos, aumentamos nosso poder de aceitação do outro, também mutável.

Acredito que novos amores também são desafios. Não que eu vá entrar em um relacionamento sabendo que vai acabar, não, vou preferir acreditar que é eterno, me iludir, criar expectativas. Mas isso não quer dizer que se ele tiver um ponto final foi porque eu nunca amei aquela pessoa, talvez ainda a ame, mas preciso, instintivamente, respirar. Ficar só. Seguir adiante levando um pouco do que ele deixou em mim.

Isso não é falta de romantismo ou sentimentalismo, apesar de me considerar uma ogra nesses aspectos, é apenas realismo e uma vontade de liberdade que supera qualquer “cobertor de orelha”.

Talvez um dia eu mude, como me proponho sempre fazer de tempos em tempos, e resolva estagnar um pouquinho. Talvez, mas só talvez, num ponto bem remoto das possibilidades. Porém não pode se dizer NUNCA, pois isso seria contra meus princípios de descobrir e renovar minhas cotas de vida nova.

Por falar em mudar, preciso tirar uns pensamentos antigos, bater o pó, trocar de roupa, cortar o cabelo, abrir as janelas e seguir em frente.

Lá vou eu, mais uma vez me reinventar …

Gabriela Wenzel

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One thought on “Não aprendi a pertencer

  1. Eu sou bem assim sabe,nunca fui muito de” pertencer “. Acho que fiquei bem resumida nesse texto. Estou me reinventando sempre .
    Eu mudei,tirei uns pensamentos, bati o pó,troquei de roupa, cortei o cabelo, abri as janelas e estou seguindo em frente.

    Lindo texto, muito bom.

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