Fica

Ontem quando estava lá, meio sem paciência pra responder quatrocentas e oitenta vezes o meu nome, e escutar cinco mil vezes “26? Achei que você fosse mais nova” olhei pro lado e vi você. E aí eu comecei com aquela palhaçada toda de não saber o que fazer com as mãos. [Coisas que trago da infância].

Eu ia beber, mas lembrei que não bebo, sou fraca pra bebida e um pouco falante também, o que poderia botar tudo a perder. Acender um cigarro seria legal, eu faria uma cara de “tô nem aí pra você e pro mundo” e ficava pagando de Penélope Cruz, com uma cara blasé de quem está achando tudo um saco. Mas também não fumo. Resolvi bancar eu mesmo. Medo.

Eu estava humildemente linda, num look tipo “moro na Avenida Beiramar Norte, próximo ao shopping” e estava me sentindo aquelas gansas de voz fina que desfilam pelo Iguatemi sábado à tarde, num visual composto por: saia básica, blusa que ganhei da dona da marca e brinco daqueles que agridem logo de chegada, que ganhei apenas pra divulgar a loja também. Ou seja, eu era uma fraude total, mas isso não vem ao caso.

E você me olhava com uma cara de “Eu vim só pra saber se você é legal ou idiota” ou “Eu vim? Haa, nem percebi que eu estava aqui” e eu achava graça, e ficava tentando prestar atenção na música, nas pessoas e no lugar, mas só conseguia perceber você me olhando dos pés a cabeça e pensando “É, até que é legalzinha, nota 6!”

Eu tinha acabado de fazer uma escova progressiva dessas que não alisam muito sabe? Dando um ar de “eu não me preocupo em ser tão lisa, do jeito que estava, eu vim”, tenho amigas lindas que me rejuvenescem a alma, tenho uma família que é tudo, e tinha você ali, na minha frente. O que mais eu poderia querer na vida? Sim, eu queria. Queria saber o que te falar naquela hora e parar de tremer um pouco a perna, se desse.

Eu poderia dizer “Não acredito que te encontrei… Se você soubesse o quanto eu esperei por esse dia. O quanto eu fiquei imaginando as coisas que eu ia te dizer quando te visse e blá blá blá Whiskas Sache” mas eu fiquei imaginando que se alguém me viesse com um papo desses eu ia fazer cara de bonequinho de MSN contente, mas no fundo ia achar brega, bem breguinha, aliás.

E naquela hora eu só conseguia lembrar da cartomante biscatona me dizendo que em 2010 eu iria me apaixonar de verdade. [Elas adoram dizer que a gente vai se apaixonar de verdade].

Lembro que no ano passado ela disse que eu ia fazer uma grande viagem [cartomantes adoram usar palavras como: grande, longa e intensa], mas o mais longe que eu viajei foi até Ilhota, comprar uns biquinizinhos.

Mas com o passar dos minutos você foi fazendo uma cara de “só chegar e levar” e aí comecei a pensar que a cartomante não era tão biscatona assim, e que aquele só poderia ser o meu dia de sorte.

Eu esperei tanto por aquilo que tive a impressão de que as pessoas me olhavam com um ar de “Parabéns magrona, você conseguiu!” E eu fui algumas vezes no banheiro só pra olhar pra minha cara de criança quando passa de ano e se livra da surra em casa. Meio boba, meio muda, um alívio.

Eu já tinha tudo escrito, já sabia como seria, se fosse. Desde quando não sabia nem ler, já tinha essa mania de imaginar a história antes mesmo de ela começar. E naquela noite, a história que ficou guardada durante meses na estante, criando pó, estava ganhando vida.

Era um sentimento sem nome. Uma espera sem motivo. Dias perdidos, que só agora sei que foram perdidos. Mas você nunca vai saber de nada, porque eu não vou te contar. Não vai saber do quanto eu esperei por isso, nem do quanto eu achei o máximo quando você achou o máximo eu ter ficado do seu lado naquela noite.

Não vai saber do quanto eu torrava o saco das minhas amigas com aquele papo todo de você, e nem da esperança que eu tinha de te encontrar naquela noite, mesmo tenho [quase] certeza absoluta que você não iria.

Mas você apareceu e eu não estava preparada pra sua chegada. Porque nunca imaginei que você fosse chegar. Mas você chegou, agora fica!

Vanessa Pinho

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