Aí você vem, aí você vai

03

Aí você vem.

Aí você vai.

E quando estou quase convencida que não verei você de novo, você volta.

Filho da puta!

Aí você vem.

E me esbaldo toda, me sinto melhor, mais segura, mais capaz, mais poderosa só por te ter do meu lado. É que você me faz acreditar que, tendo você, sou plena. E quando tudo parece certinho, perfeito, organizado, as coisas todas nos seus devidos lugares, acordo, esfrego os olhos e, de repente, não mais que de repente, cadê você?

Aí você vai.

E tento fingir indiferença, mas sofro. Como eu sofro… É que me falta tudo quando você não está por perto. E durmo pouco quando você não está por perto. E me contento com o mínimo que tiver na geladeira, quando você não está por perto. E revejo os mesmos filmes românticos bobinhos que habitam há eras minha estante empoeirada, e alguns outros que se escondem no HD do meu notebook, quando você não está por perto. Sequer vou à locadora atrás de novidades, quando você não está por perto. Sequer vou à manicure, se você não está por perto. Finjo não gostar de ter as unhas vermelhas, se você não está por perto. E fico com raiva, desejando que você fosse a minha menstruação, ela pelo menos fica comigo cinco dias por mês, você nem isso.

Aí você vem.

E faço questão de me enfeitar inteira, como sou idiota. Devia ser mais durona, mais rígida comigo mesma, mas não adianta, me enfeito inteira. Retoco a raiz dos meus cabelos que finjo ser loiros, corto eles mais curtinhos para que realcem o desejo que minha tatuagem no pescoço deve despertar nos homens que me veem passear pelas ruas toda cheia de mim, toda cheia de ti. E compro lingeries, várias, vermelhas, pretas, brancas, de oncinha, espartilhos, meias que sempre quis ter e me faltava coragem pra comprar, mas tua presença me encorajou. Comprei uma calcinha que quase me envergonho, uma tirinha só na parte de trás. Não é exagero, é uma tirinha mesmo. Compro tudo na esperança de um dia vir a usá-las, mesmo sem saber se vou ter oportunidade para tanta sedução acumulada.

Aí você vai.

E, mais uma vez, me deprimo. Recuso os convites que minhas amigas me fazem e me afundo no meu edredon, ruminando o resto de qualquer coisa que tiver na despensa, e nem para beber, encher a cara eu me animo. Mesmo que quisesse, não conseguiria. Sou fraca para bebidas, você sabe. Mas quando você está por perto, faço questão de pedir Heineken, para mostrar que posso, mesmo sendo mais forte, mais cara do que aquelas outras que minhas amigas tomam, mesmo pegando mais rápido, tomo só para mostrar que posso. Você gosta desta minha característica, sou econômica neste ponto, já que apesar de ser mais cara, preciso beber pouco para ficar toda soltinha. Pouca coisa já faz um estrago grande nas minhas tímidas más intenções. E, assim, outra noite perco o sono regurgitando essa raiva que você me faz sentir por não ver um pingo de vermelho nessa sua cara sem vergonha que me abandona sem sequer se preocupar em como eu vou ficar.

Aí você vem.

E aí você já sabe, a mesma lenga-lenga de sempre. Fico toda cheia de mim, toda orgulhosa de sei lá o quê, toda faceira, toda cheia dessa euforia estúpida que você usa para me intoxicar.

Aí você vai.

Aí você vem.

Aí você vem.

Aí você vai.

Porra, salário, precisava ir embora tão cedo?

Nem chegou o dia dez ainda, precisava ir embora tão cedo?

Mas, por favor, não deixe de vir.

David Mattos

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