Naturalidade leviana

Conheceram-se num dia chuvoso de março, a época mais quente para os conterrâneos de São Paulo. Ele resmungava algumas palavras baixinho e ela se deixava molhar, rindo com o arrepio que percorria sua pele a cada gota. O tempo passava, conversavam, ela ansiava a cada toque ainda não concretizado, um roçar de braços foi tanto quanto podia esperar e nessa sensação se deixou mergulhar, sem ainda poder se molhar, ele então, se afastava o quanto podia, tentando tornar aquilo racional com quanto mais já esperasse a irracionalidade chegar, abatendo-o brutalmente. Quase tão natural quanto a respiração, a proximidade veio, mais um dia no dia de ambos, sensações, sentimentos e novas formas para se lidar com as quase mesmas situações também vieram quase despercebidamente. Toda aquela naturalidade a fascinava e num desejo de também fascinar, ela dançava aos seus pés se mostrando cada vez mais impossível, mais distante, mais inalcançável só dentro de si mesma. Tudo aquilo numa tentativa de atrair, afastava e quando se viu tão próxima de estar longe abandonou os papéis e passou a ser também assim tão natural para também encantar, e a sua naturalidade era pegajosa, a naturalidade da fascinada nunca é fascinante, ele tinha cores demais para ela e assim se tornara sobrecarregado. Ninguém precisa ser sincero o tempo todo, sinceridade é uma arma pesada para aquele que se mantém em silencio e dessa forma ela passou a também se silenciar. Ah, é o mistério, o desconhecido que tanto atrai e sendo assim, ela passou a se achar muito mais atraente, se dando espaço para também se fascinar a si mesma. Ele, por outro lado, se mostrava sempre tão interessado no auto-interesse da outra que seu ego inflado o fez encher ao próprio. Quanto mais fascinava-se consigo mesma, ela parecia mais difícil de se manter e dessa forma, pelo ter de estar e estar sempre agarrado para com ela estar, ele a prendia em si, ela ria, repelindo-o só para poder vê-lo fazer ainda mais força. Ignorava-o para vê-lo implorar atenção, não o beijava para senti-lo beijá-la faminto, não o abraçava para vê-lo agarrar-se a ela como que garantindo uma posse que com um sorriso ela desmentia só para provocar. Ah, ela já estava tão entregue!

Constance

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