Pendência

Tenho que vencer nessa vida, é urgente. Conhecer o mundo, sacar belas fotografias, degustar os sabores mais exóticos, manejar a agenda cotidiana com o talento de uma malabarista circense, alimentar essa minha sede doida pelo constante movimento. Isso tudo sem deixar a vida passar despercebida. Assobiando e chupando cana.

Tenho que ter um lindo e amplo escritório com um frigobar retrô e um baleiro das antigas, ornando com decoração off-white, futurista, moderninha, inusitada. Para isso, trabalho desenfreadamente: penso no prosecco, em tudo o que ainda tenho que fazer, nas minhas ambições, e me lanço, confiante. Escolhi empreender, dar risada do risco, calculá-lo todos os dias, conquistar, persuadir. Optei por uma profissão pela qual tenho paixão, e paixão é um lance que te leva até as últimas conseqüências.

Tenho que ser uma máquina de criatividade, é urgente. Para isso, devoro livros e revistas, armo a agenda para passar manhãs em livrarias, alimentando meu ímpeto por criar algo novo, reinventar o que há. Para isso, olho o mundo sempre com a intenção de capturar o evento, guardar uma boa sacada, trazer uma inspiração no bolso. Mal descanso: ando acordada demais, é o que dizem por aí.

Tenho que estar próxima dos entes e amigos mais amados – para isso, me desdobro em 1000 para saudar nos aniversários, escrever um recado carinhoso em Post-It, mandar um cartão natalino, passar uma noite fazendo escândalo num karaokê, planejar uma viagem incrível, promover uma roda de chopp ou de pizza pra multidão. Pelo meu eleitorado, não durmo, e vale a pena cada pedaço de sacrifício.

Tenho que ponderar minha absoluta sinceridade: talvez ela até tenha um quê ingênuo em vários momentos, porque insisto em botar fé no mundo bem-intencionado, que valoriza a verdade nua e crua, sem pó compacto e nem corretivo.

Tenho que me exercitar, mesmo quando tudo o que queria era só dormir. Meu próprio organismo já nem se encosta por muitas horas: vive como o bombeiro que, a qualquer momento, pode ser acionado para apagar o fogo em uma esquina qualquer. Claro que sou uma criatura levemente alucinada, que acorda cantando, mas moram em mim um coelho e um bicho-preguiça que se engalfinham todo dia – desde algum tempo, o coelho anda em séria vantagem nessa pancadaria sem fim.

Tenho que encontrar minha metade, é urgente. Para não ouvir minha avó dizer que já estou madura demais, para não ficar a mercê de circunstâncias, para não sentir a mais profunda solidão acompanhada na balada: pra lá, só vou se a vontade de ‘dançar como se ninguém estivesse vendo’ me invadir. Caso contrário, me deixo envolver pelo pijama e as minhas pantufas do Homer Simpson.

Tenho que ser a melhor filha do mundo, é urgente. Nada mais justo que retribuir todo o empenho, amor e sacrifício feitos em meu nome, um dia. Em busca disso, espremo meus horários, levo meus pais para provar comida nova, e me delicio ao assistir suas pequenas descobertas, e o brilho nos olhos deles por fazer isso em família, por ter sua prole por perto, rindo de bobagem, lembrando do que já se foi. Eles protagonizam meus melhores momentos.

Tenho que fazer mais pelo próximo. Nada me traz mais novas energias do que isso. A cada hora dedicada aos meus pequenos no hospital, penso em poder, um dia, doar muito mais: sou eu quem mais ganho, ao final das contas. Doar-se gera, hoje sei, um divisor de águas na vida.

Tenho que ter tempo livre. Pra desenhar bichos pra minha afilhada com giz de cera, pra deixar o tempo passar em frente a uma temporada inteira de série de TV, pra chorar com filme água com açúcar, pra adormecer num fim de tarde, bater papo no bar, ler um livro bem, mas bem bocó.

Tenho que tomar um porre pra esquecer metade das coisas anotadas na minha mente burocrata. É urgente.

Karina Lima

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