Resoluções de um final de ano

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Falta pouquinho pra vestir branco, assistir oito minutos de fogos de artifício, beber espumante, entrar no início /13 com beijo às 00h de um ano novinho em folha, esperançoso em saúde, amor, paciência e prosperidade – palavra que a gente escuta apenas nessa época do ano, enquanto come romã, pula sete ondinhas e enche a agenda do novo ano com promessas que vão sendo esquecidas à medida que a rotina nos engole.

Faz anos, deixo de anotar pedidos ou mudanças pros meus próximos 365 dias. Quando me prestava a escrever enfileiradas promessas (que não cumpria nunca)  parecia até que o efeito contrário me assombrava e afastava os objetos de desejo pra uma vida melhor – e eu, decepcionada, like always. Comigo mesma, vilã e sabotadora de emagrecimentos, endurecimentos de coxas e bíceps, concentração em trabalhos acadêmicos, extinção das sobremesas após o almoço, namorado duradouro (coisa que só alcancei depois de, verdadeiramente, desdenhar) ou qualquer que fosse o compromisso de passar de rascunho para versão melhorada.

Esses dias, me toquei que ando infelicíssima. É mesmo incrível essa magia de, quando um setor da vida se encaminha, os outros todos descambem e fiquem ou bem meia-boca, ou de mal a pior. Fico reflexiva, deitada na cama, no escuro antes de dormir pelo menos meia hora me desdobrando atrás de soluções, linhas, caminhos, e mudanças plausíveis (e possíveis) pra uma vida melhor. Inteligente ou não, decidi começar com pequenas evoluções que se encaixem nas minhas próximas – e últimas – semanas deste ano apocalíptico do calendário maia. Foi então que, larguei as cadernetinhas de mão, assim como as agendas quase sempre abandonadas em maio ou junho, e decidi pensar em coisas pra melhorar apenas quando o natal tomasse conta das Lojas Americanas todinhas.

Decidi que eu deveria encontrar um esporte, ter um novo projeto e, além de começar a terapia, limpar meu karma (que na verdade, anda negativo, mais abaixo que a promessa de cerveja geladíssima em propaganda). Arriscar em estudos com que já flerto há tempos, trocar de piercing, mudar um pouco o cabelo. Deixar a zona que é a minha vida por tempo indeterminado, a fim de conforto, algo que hoje não me é familiar.

Decidi que, embora a vida coloque mil e um obstáculos pra que eu consiga sorrir sem fingimento, chorar escovando os dentes, em frente ao espelho, só me faz mais frágil, e por isso mesmo, atingível. Ser quase verde (nada ambientalista que sou), tão madura, e conseguir, sem medo, falar com parcimônia e tentar bandeira branca. E que, por mais que as escolas de balé aqui de Porto Alegre deem aulas para adultos apenas pela manhã, que eu caminhe no horário livre ao invés de procrastinar frente ao computador.

Decidi começar pelas coisas pequenas porque, embora um chocolate depois de almoçar tenha se tornado um vício, minha celulite agradecerá futuramente, quando sumir. Decidir tentar compreender ao invés de ferrenhamente criticar, esse dom opinativo-maldoso o qual cada vez mais, como vocação, tem me chamar. Optei por, até o final do ano, desfazer rusgar, evitar caras feias e pessimismos que, além de não me levar a lugar nenhum, desandam setores da vida. Escolhi, se der, pedir desculpas, conversar com calma, encontrar pontos comuns à opiniões tão distintas. Doar tempo, trocar roupas, retocar velhas feridas, remendar sonhos forasteiros, sentar num sofá sem pensar em absolutamente nada enquanto faço coisa nenhuma – da paz solitária onde as ideias repousem, solidificadas e tranquilas.

Eu ando mais leve mas sem rota prévia por aí: um saco de dúvidas sem fundo falso, me remexendo inteira atrás de respostas que talvez não saiam nunca no papelzinho sorteado. Pronta para virar do avesso pela milésima vez e trocar de planos, de rotina, de alma se for o caso. O peito, contudo, ainda aberto, preenchido, suficiente. Motivo de riso fácil e encontro da paz. Saudade antes mesmo da despedida como comprovante.

Camila Paier

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