Ele

Era como passar o dia fazendo compras, ou como goiabada com queijo. Não sei direito. Era mais ou menos essa a sensação que eu tinha cada vez que ele me vinha à cabeça. Ele, que chegou de uma maneira meio louca, como tudo na minha vida, e tratou de ocupar um lugar no meu coração.

Ele tem um olhar que parece resolver os problemas do mundo, inclusive os meus. Uma segurança que cura toda falta que eu sinto de não ter tido alguém que me mandasse levar o casaco porque podia esfriar e que era pra eu tomar sucos de laranja com cenoura.

Ele disse: quero passar o Natal com você! Enquanto que a coisa mais animadora que eu escutei nos meus últimos dias foi: bah, você é muito engraçada, quero que você vá cOmigU na festa do Cebola, 25 pila por cabeça.

Como não se encantar com alguém que diz “quero passar o Natal com você”? Ferrou! Ferrou geral quando ele disse isso.

Eu que já estava acostumada a ficar de cantinho em noites de comemoração, olhando os casais se abraçarem, como se existisse ali uma obrigação de ser feliz e de fazer cara de “nunca brigamos”.

Eu também quero fazer cara de “nunca brigamos” em noite de Natal e ter alguém que me mande mensagens legais na noite de reveillon. Sabe, eu tenho me irritado muito em noites de reveillon.

É como se uma voz, mais irônica do que eu, falasse baixinho no meu ouvido: sim, e aí? Ano vai, ano vem, e você aí, cheia de preguiças das pessoas, olhando para o próprio umbigo, achando que o mundo gira em torno dele! Pelo amor de Deus minha filha, faça alguma coisa por você. Se jogue!

E essa voz me irrita muito sabe?

O ano novo espera de mim, mais do que eu posso dar. Ele me obriga a ser feliz, sei lá, ele me obriga a mudanças, e eu sei que preciso mudar, mas pra onde? Eu estou esperando você aqui, sabe? E não consigo sair do lugar.

Eu também tenho me irritado muito com aquela musiquinha do Fantástico, de quando acaba o programa. Essa música também fica me impondo coisas do tipo: o domingo está acabando… Você não fez nada por você no final de semana. Amanhã já é segunda feira e você não saiu de casa, não conheceu ninguém, nada! Mas amanhã começa a semana e você tem a obrigação de mudar!

Eu odeio domingo. O domingo me encosta na parede, odeio ele. Eu gosto de quarta-feira, que é um dia que eu não tenho a obrigação de ser feliz. Ninguém me cobra nada, ninguém me convida pra uma balada e eu não tenho que inventar coisas para não ir.

Eu adoro ele, e adoro todas as vezes que ele diz que eu preciso me alimentar direito. Eu sei que preciso me alimentar direito, mas quero que ele me diga. Mulher carente é foda! Pior do que mulher maluca. As duas coisas juntas então? Quem encara? Ele.

Eu já disse tantas vezes que eu não sou normal, que eu tenho mania de estragar tudo sempre, porque eu sempre acho que felicidade é igual tragédia, só acontece com os outros. E fico procurando motivos pra provar pra mim mesma que, tanta felicidade assim? Aí tem coisa!

Fico olhando o Orkut dele e querendo saber quem é aquela biscate que deixou recado de coraçãozinho brilhante. Mas ela usa aquelas frases que começam com “O segredo é não correr atrás das borboletas…” e “Já perdoei erros imperdoáveis…” e como se não bastasse, ainda bate fotos de si mesma, mostrando os peitos e a boca fazendo um biquinho ridículo e escreve “Euzinha” na legenda.Pessoas que escrevem “Euzinha” chegam a me dar bolinhas pelo corpo.

Odeio quem escreve “Bom find” ou “Fotos do churras”. E se ela escrever “Foto do churras no find”, eu quero morrer agora! Eu odeio essa forma ridícula que as pessoas escrevem hoje em dia. É como se elas precisassem a todo custo provar para o mundo o quanto são idiotas, sabe?

E eu sei que ele odeia isso. Ele odeia pessoas normais, que se parecem, que vão aos mesmos lugares sempre, que usam as mesmas roupas de grife.

E eu odeio aquela biscate do recadinho brilhante. E eu aposto que ela usa perfume da Natura, de erva doce, aposto. E aposto também, que naquele álbum privado (merda!) que ela tem no Orkut, deve ter inúmeras fotos de baladas, e ela fazendo cara de “pegadora” (já falei sobre o horror que eu tenho de menina com cara de pegadora?).

Eu também odeio o Orkut e a função “Privacidade”. Quer privacidade? Escreve um diário, ridícula. Não que eu seja uma pessoa interessada na vida alheia, mas acho bacana conhecer o inimigo.

Mas nem tô ligando tanto pra isso. Porque ele disse que queria passar o natal comigo, e isso na minha mente doente, foi o mesmo que dizer: sim, vamos nos casar no mês que vem. Você já encomendou o enfeite do bolo?

E eu te adoro tanto que tenho medo de tocar em você, como um chocolate que eu como devagar, com medo que acabe. Eu tenho medo de ter encontrado o meu par na quadrilha, sabe? Eu tenho medo de não saber como viver depois que encontrar o que tanto procurei: a felicidade.

Pego um livro e finjo ler, mas na verdade é só uma desculpa pra baixar a cabeça e pensar na última conversa em que você disse: me espera! E eu tenho muito pouco tempo para aprender a lidar com a felicidade, antes que ela chegue e me atropele como um caminhão desgovernado.

Eu tenho medo de ser esmagada pela felicidade, sabe? Não, não sabe. Porque você é feliz pra caramba, e eu quero ser feliz com você

Vanessa Pinho

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