Se eu fosse presidenta

Se a Festa [Obrigatória] da Democracia tivesse me brindado liderança absoluta nas urnas, estou certa de que ainda não teria pregado os olhos direito por nenhuma noite inteira. Só de pensar no reboliço que isso poderia representar na minha-nada-mole-vida, minhas tripas ameaçam enroscamento geral, curto circuito e pane generalizada. Confabulei a respeito dessa pauta há pouco e quase fundi meu pobre cérebro tentando construir um plano imaginário de governo — pairou até cheiro de queimado na varanda da sala de estar. O jeito foi compartilhar aqui só o que sobrou assim que desisti — claro — dessa tarefa. Não há remédio, isso é o que temos para hoje.

Conto que um dos meus primeiros pensamentos sobre o assunto, olhando para um cursor piscando na folha pálida do Word, foi: se eu fosse presidenta, investiria pesado em educação para o máximo de pessoas, incluindo o Tiririca. Abrangência integral: desde a cartilha com a lição da pata que nada até o ensino profissionalizante e a graduação, porque deliro para ver na ativa uma usina de cabeças que brilhem no mercado de trabalho, que mostrem o pensamento além do cafezinho da firma. Organizações que empreguem gente que queira mais que enganar o patrão no horário comercial.

Se eleita, eu posicionaria o sistema prisional como a principal via para a ocupação de mentes perigosas: se detentos produzissem zilhões daquelas cadeirinhas de bebê obrigatórias no país, quem sabe assim não pararíamos de receber trotes lá de Bangu, né? Essa gente anda ociosa demais. E olhe lá que trotes são pouca coisa dentro do que esses garotos malvados ‘produzem’ enquanto vêem o sol nascer quadrado, se é que vocês me entendem.

Se eu ocupasse o cargo mais alto na nossa política, não escaparia do estigma de combater a sede e a fome – é duro admitir, e a Madame Mayara Petruso não aprovaria isso de modo algum, mas aqui no nosso chão há uma série de urgências: às vezes, em meio à caatinga ou em um barraco modesto, não há tempo de esperar que uma criança aprenda a tabuada do 6, para depois alimentá-la com tutu de feijão. Encantaria-me representar uma nação que tivesse apenas fome de saber, fome de justiça, fome de inovação… mas não poderia, de modo algum, fechar os olhos para a fome latente de panela, brutalmente presente, cruel vilã que ainda ceifa tantas vidas, todos os dias.

Se eu fosse essa autoridade exemplar, investiria primeiro nos leitos e na infra-estrutura de Hospitais Nacionais, de responsabilidade do Governo Federal, para em seguida fazer valer o conceito de Humanização Hospitalar: quem dera contar com locais onde corpos e mentes fossem curados, todos os dias. Um sonho, uma nova fronteira – a saúde iria fazer valer o seu próprio significado, produzindo novos sorrisos.

Governando o Brasil, daria nele um choque de gestão empresarial, porque a Máquina Nacional está com as pilhas bem fracas. Meus ministros, por exemplo, seriam escolhidos por headhunters — nessa vida, não há milagre sem prévia romaria, certo? Na Segurança, buscaria incessantemente profissionais com a bagagem moral e a fibra do Capitão Nascimento – dentre os materiais de escritório, sacos plásticos teriam grande estoque. Só por precaução.

Conduzindo um país, criaria um vestibular para pré-aprovar deputados e senadores – seria o fim da ditadura dos submongolóides. Para aplicar no processo de candidatura, seria mandatório saber estruturar projetos, falar com coerência, comprovar experiência, não ter o ‘sobrenome’ de alguma fruta, não ser cantor do KLB, não ter ganho visibilidade por ter agredido mulheres. Ah, não menos importante: bigodinhos safadjeenhos a la Sarney, nunca mais na história desse país. [Alô CQC, Pânico e Trupe dos Cassetas: com isso, suas pautas precisariam urgentemente de alguma novidade, a fonte secaria… né?]

Se eu fosse presidenta, procuraria um personal stylist e usaria gloss nos lábios. Tenho ciência, aliás, de que barba cinza e nove dedos são as tendências para o momento no cenário pop, mas eu tentaria inovar e quebrar esse tão forte paradigma. Ah, e se eleita, daria um Nintendo Wii pro Serra se ocupar e adquirir hábitos mais, digamos, vivos. [Oká, cessaram as minhas maldades. Parei por hoje.]

Uma vez aclamada chefe de governo, cortaria o barato de toda a corja que planeja mil patifarias com as obras superfaturadas nos estádios de futebol para a Copa. Ah, e no meu governo, o Corinthians jamais teria sequer menção na pauta “abertura dos jogos”, não mesmo [não coloquem minha mamãe no meio, xinguem só a presidenta]. Empenharia-me ao máximo para impulsionar o Brasil em seu momento de maior plenitude e evidência através desses incríveis eventos — a briga seria feia, mas muito válida, estou certa.

Se eu ganhasse a corrida presidencial, não incluiria o rosa choque nas cores da bandeira nacional, e nem sairia por aí bradando a vitória suprema feminina, independente, arrojada e purpurinada. Não é preciso ter muito esclarecimento para saber que homens e mulheres possuem habilidades distintas, e que competência, meu povo, é bênção assexuada: você é aquilo que pratica. Esse papo feminista me dá uma preguiça…

Governando lá em Brasília, ouvir o Hino Nacional me causaria ainda mais comoção – veja lá que hoje meu pobre coração já acelera só em escutar os primeiros acordes dessa melodia, hein? Eu poderia ter zil desejos de realização e um número sem-fim de desafios, mas talvez um sentimento maior fosse dividido com vocês: de que minha luta diária seria em prol de desmanchar o nó na garganta que está aqui, mantido graças a um sistema injusto, covarde e mesquinho, que castiga quem faz a lição de casa e beneficia encapetados que se comportam pessimamente mal.

Só valeria a pena virar Presidenta sendo, mesmo, excelentíssima.

Karina Lima

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s