Nada ficou no lugar

A gente nunca sabe o momento em que o jogo vira. A dança das cadeiras é tão sutil que mal escuto arrastar no chão. O envolvimento começa breve como a pausa pro cafézinho e quando a gente menos espera, a xícara vira o prato de uma farta refeição. É uma pena ver que minha fome tem aumentado e a sua não. O desapego de ter você na minha cama mudou. Mudou minha respiração quando você dorme do meu lado. Mudou o destino dos meus pensamentos. Mudou a forma como meu ouvido escuta teu sussurro dizendo “adorei sua companhia”. Mudou o jeito como eu passo as mãos no teu peito, desejando lá no fundo, que você perca mais um vôo.Tudo mudou e eu nem percebi até você me dar aquele abraço apertado, que só significou para mim. Você não abraçou só meu corpo, mas uma série de esperas, desejos, vontades, saudades que eu acumulo há meses. Poderia não ser de você, especificamente, mas aí você apareceu. Eu gostaria de poder me proteger desse enorme letreiro “vou me foder de novo” bem luminoso que eu vejo agora. Gostaria de apagar essa luz que acendeu sem a minha permissão. Dói nos olhos e no coração. Gostaria de não sentir no peito a angústia da impotência diante do rumo óbvio dessa história. Uma história que eu não queria protagonizar. Mas você nem sabe o quanto eu fui pega desprevinida, né? Muito menos desconfia que sua constante presença é pura negligência e quem vai pagar o preço sou eu. Você nem sonha, nem imagina que tudo mudou para mim, mesmo que, pra você, sua cadeira não tenha saído do lugar.

Carol Burgo

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