Aula de interpretação

– Alô? Fulano? você taí?

Então, deixa eu te dizer que me deslumbrei tá? Me apaixonei por você assim que nos conhecemos. Mentira. Não foi paixão, foi um encantamento superficial disfarçado de tesão. O fato é que, se fosse paixão, era cedo demais pra chegar a esse diagnóstico que eu preferi esquecer. Mas esse sentimento sem nome (inflamado pelo álcool), ficou guardado lá no fundo da gaveta, como a lembrança de uma noite incrível com um desconhecido. Mas parecia tão real, né? Parecia até bom.

Aí você continuou alimentando esse qualquer-coisa-estranha que tava rolando e eu me deixei ir. Juro que tentei uma frenagem brusca, mas você amorteceu o impacto e, sei lá como, tomou o controle da direção. Desculpa, eu devo ter sido muito ingênua mesmo em achar que poderia interpretar seus sinais do jeito que você estava mandando e não do jeito que eu estava recebendo. Talvez faltou sinceridade, daquelas bem dolorosas, de ambas as partes. E tem uma diferença absurda nos nossos discursos por que nós somos absurdamente diferentes. Você entende, né?

Então. É isso. Foi uma falha na comunicação e eu peço desculpas pelo sentimento precipitado e por não manter o distanciamento necessário na nossa relação. A gente devia ter redigido algum tipo de cláusula que protegesse nossos interesses, né? Espero que você ainda esteja me ouvindo por que esse sinal é péssimo e a rede cai de vez em quando. Dizem que as operadoras fazem isso de propósito pra ganhar dinheiro com a ligação. Mas voltando…

Realmente não faz o menor sentido a gente se apaixonar por quem nos faz rir todos os dias. As coisas não são assim, né? Ou são? As mulheres são mesmo bobas, e acham que risadas alimentam uma paixão, né? Fui muito leviana no meu julgamento e pulei a aula de interpretação. Por isso estou aqui, pra pedir desculpas pelo equívoco e apagar esses rabiscos que fizemos juntos. Eu sempre soube desenhar melhor que você e talvez tenha sido esse o problema. Enquanto você criava um boneco de palitos, eu pintava uma paisagem inteira, com todas as sombras, nuances e proporções.

Além disso eu enxerguei em você os mesmos defeitos que vi nos outros por quem me apaixonei, e isso me cativou. Sim, eu tenho essa teoria estranha de que a gente não se apaixona por pessoas novas, mas por velhos padrões. E aí você tá bem dentro da minha curva sinuosa de erros sucessivos. Mais um erro que eu estava disposta a insistir e deve ser por que eu me divirto com isso. Mas que bom que a gente dorme e acorda e vê tudo numa perspectiva nova e consegue perceber a loucura que transbordou na razão.

E olha, eu tô aqui falando há 5 minutos sem interrupção e nem sei o que você tem pra me dizer, mas estou disposta a ouvir a sua versão.

– Moça, você ligou por engano.

Carol Burgo

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