A fechadura de portugês

Uma noite normal ou mais uma, tanto faz. Era pra ser isso. Era, eu digo, porque não foi. Mas isso eu nem preciso dizer, você sabe. E você sabe tanto e tantas coisas que de vez em quando fico sorrindo pensando se eu sei tanto assim de mim. Eu escrevi pra você e disse que esse seu saber exagerado sobre as minhas coisas e reações e atitudes e pensamentos secretos não me espantam e, pelo contrário, me tranqüilizam. Porque é você. Se fosse outra pessoa talvez eu sentisse o inexplicável, mas é tudo tão fácil de explicar e sentir e perceber que eu nem preciso falar, você completa as minhas frases, além dos meus dias.

Ontem eu girei a chave na fechadura de Portugal e entrei no apartamento que estava escuro. Abri as janelas, liguei as luzes, fiz barulho, procurei alguma coisa que desse a entender que a qualquer hora você giraria a chave na fechadura de Portugal e entraria por aquela porta sorrindo como sempre. Oi, amor, cheguei. Não amor, você não chegou. Os minutos meio arrastados e cansados do dia já estavam sentados no sofá esperando a novela das oito começar. Eu já estava exausta depois da garrafa de vinho e do pocket show que eu dei pra ninguém, a colher de pau que virou microfone estava na frente do porta-retrato com aquela nossa foto preferida e eu estava procurando pelo corredor algum vestígio do seu perfume. Procurei pelos cantos, nos lençóis, no travesseiro, na toalha, em frestas que garanto que nem você sabe que têm. Nada. Tentei achar uma jaqueta pendurada na cadeira, seu tênis espalhado pela sala, os 29 copos que você suja e deixa dentro da pia, resíduos de pasta de dente no banheiro, roupas aglomeradas em cima da cama. Nada.

Lembrei das minhas reclamações domésticas e juro que senti falta da pia cheia de louça. Louça de três dias, um mês. Nada. Peguei a correspondência e, de alguma maneira, aquilo era você. Tinha o nome ali. Eu li o nome ali. E chorei ali mesmo, no elevador, no corredor, girando a chave na porta, não, dessa vez não foi na fechadura de Portugal, você sabe que aquela só é usada quando alguém viaja ou passa o dia fora. Mas eu sentia que você ia chegar. Era pra você ter chegado, que nem nos filmes. A mocinha deitada, melancolicamente bêbada, abraçada em um travesseiro pensando no amado. É exatamente quando a lágrima está caindo que o mocinho invade o recinto com aquela cara de não-sofra-estou-aqui. A lágrima caiu, a irmã da lágrima também caiu, a mãe, a tia, a prima, a bisavó, toda a família L. Nada.

Fiquei lembrando daquele dia que estava chovendo. Aquele dia que você ia embora. Não, não é tão longe, mas parece que é outro planeta. Eu estava chorando com a cabeça escondida no seu peito, você sabe que gosto de me esconder nos seus abraços. Eles são os melhores que eu já recebi e quando moro temporariamente ali me sinto segura, parece que nada me atinge, que tudo tem solução, saída, remédio. Tudo se ilumina, é preenchido com cores que não estão na cartela e é um refúgio eterno. Eu estava lá na minha casa temporária e você fez aquele gesto de sempre, segurou o meu rosto devagar e disse olha-pra-mim. E eu olhei com cara de choro e você me olhou um olhar tão lá dentro, no fundo, tão seu, tão meu e disse não-chora-meu-amor. E eu chorei mais porque foi tão bonito e chorei mais porque eu já tava chorando e te abracei bem forte e tão forte e tão forte que pensei que ia te esmagar. Eu adoro quando você pega o meu rosto daquele jeito e diz com aquela voz olha-pra-mim. Olho, olho sempre. Olho mesmo quando você nem sabe. Olho a todo instante. Na verdade eu nem me canso de olhar, parece que olho pra você e olho pra mim e olho pra nós, a gente é tudo isso. E quando você me segura e te olho fundo e vejo todo aquele brilho que tem no seu olho eu penso que sim, quero ser tua pra sempre.

Demorei pra dormir, eu e todas as lembranças. A gente não chora só por quem já partiu ou por quem não vai mais voltar. A gente também chora de saudade; por um sentimento bom. A gente também chora lembrando da vez que quebrou uma taça, de quando dançou na sala, dos filmes que viu, das músicas que ouviu, da comida que deixou queimar. Não acredito em promessas de amor, em palavras que se perdem quando a janela é aberta. Acredito na coisa viva, no gesto de cada manhã.

 

Acordei a noite toda, senti a sua falta, a cama era grande demais, o vazio era grande demais, a saudade era grande demais. E me senti pequena demais pra tanto sentimento. Pensei nos últimos dias, que foram difíceis. Sei que você estava comigo, mesmo longe. Sei que estamos sempre juntos, independente da distância. Mas senti a sua falta. Falta de morar no abraço, da gente se perder no silêncio, da sua presença. Se me perguntassem em que lugar eu quero morar eu com certeza diria que é dentro do teu abraço. Não existe lugar mais confortável, quente, cheiroso e acolhedor. E eu me sinto segura, em paz, protegida, sem medo. Deve ser por isso que gosto tanto de colocar a cabeça lá dentro e ficar bem quietinha. Dessa forma ninguém me acha, a não ser quem efetivamente precisa me encontrar. Mas essa pessoa, bem, ela nunca, nunca me perde.

 

Clarissa Correa

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