Eu teria dado meu telefone a você..

Esses dias eu conheci um mocinho na balada. Muito educado, gracinha, alguns anos mais jovem. A aproximação dele aconteceu de forma direta e gentil, muito bem orientada. Desde o início ele sabia o que queria e exalava a confiança (talvez proveniente da extrema beleza) de que podia qualquer coisa que quisesse… Alguns minutos conversando comigo, ele tentou um beijo. Não dei.

Não sei dizer ao certo porque sequer troquei telefone com ele. Talvez — apesar do meu desejo — eu tenha usado aquela situação pra refletir e perceber que o discurso feminista que a gente sustenta tanto, aquele mesmo da independência e iniciativa feminina, pode gerar o efeito contrário muitas vezes.

A gente estava tendo uma conversa deliciosa… Mas quando o amigo chegou com seu olhar de reprovação vc-tá-nessa-ainda e o moço se deu conta que havia passado 30, 40 minutos conversando apenas comigo em uma boate lotada de gente (leia-se muitas possibilidades) retraiu-se. Fui educada e simpática, agradeci a companhia e saí.

Por que contar essa história? Porque eu acho que toda mulher merece um cara que gaste mais de 40 minutos, insistindo, conhecendo e se deixando conhecer antes de tentar colocar a língua dentro da boca dela. Nada contra a filosofia do “ficar”… Mas é que hoje eu vejo que a nossa vida perdeu boa parte do romance. E da corte, do flerte, da conquista, da sedução… As relações são quase todas fast-foods, e a gente tem tanta fome de viver, que vai atropelando fases e vai atropelando tudo. E mata — sem se dar conta — o tempo necessário pra perceber se aquela história podia ser mais… Se o cara era legal, ou você era legal… vai saber.

Eu acho que eu tô ficando careta. Nunca achei que eu fosse dizer isso, mas tô. Acho que a gente veio “deseducando” os homens durante todo esse tempo, e deixou tudo tão fácil, tão disponível e tão acessível que matou todo o encanto…
Por que simplesmente não beijar o cara quando estiver com vontade? Por que relutar em atender a cada desejo e necessidade nossa (inclusive sexual) no instante mesmo em que elas aparecem? Afinal, não somos mulheres modernas? Respondo.

Porque depois de um tempo, a maioria de nós reclama de solidão e vazio. E não entende por que ele não percebeu que você é incrível e te convidou para a festa da empresa. E se sente abandonada, sozinha… Fazer um almoço completo, com uma salada gostosa, uma massa com molhos, temperos e a proteína escolhida, pode dar o trabalho de ir pegar os tomates frescos na feira, marinar o peixe, lavar as folhas, misturar condimentos, mas traz uma experiência e um sabor que não podem ser comparados ao de passar no drive-thru daquela loja de sanduíches e ingerir em dois minutos o cheeseburguer com bacon.

Eu não quero beijos fast-food, não quero sexo fast-food. O cheeseburguer pode ter lá o seu espaço e o seu charme, mas é barato, gorduroso, faz mal pro coração e deixa a gente se sentindo feia e inchada no dia seguinte. Como nós, os homens também querem ser sacudidos até perderem o juízo, também querem se sentir vivos. Também querem se apaixonar e — por mais que neguem — encontrar aquela que enlouquecerá suas cabeças. Me chamem de quadrada, mas eu não acho que vai ser a moça cuja língua ele conheceu antes mesmo de dar oi. A mesma moça que depois, em casa, vai ficar se perguntando porque histórias incríveis só acontecem no cinema.

(Ao moço dos olhos azuis que conheci numa noite de quarta em dezembro naquela boate do lago, saiba… eu teria dado o meu telefone a você.)

Elenita Gonçalves Rodrigues

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7 thoughts on “Eu teria dado meu telefone a você..

  1. Olá!
    Adoramos seu blog!
    Tb sou psicóloga e gostei muito de poucas coisas que li!
    Meu namorado gostou desta postagem aqui, postou no facebook e lhe deu os parabéns!
    Até mais posts!
    bjs!

    1. Oi Keli,
      Obrigada pelo elogio! Tanto você, quanto seu namorado, são muito bem vindos no blog.
      Bom saber que vocês gostaram.
      Espero sua visita mais vezes.
      Beijo

  2. Olá Elenita, tudo bem? Gostei muito do seu post. Concordo com você que hoje as relações normalmente seguem o modelo fast food. Boa parte das coisas hoje acontecem com muita superficialidade e sem a darmos importância devida.
    Parabéns!

  3. muito bom … curti e concordo com isso … homens também pensam assim pelo menos alguns !!!
    não sou dessa fase de sair beijando pra pegar todas e tampouco to ligando para que os amigos falam .. afinal a vida é feita de escolhas e 40 minutos ou mais muito mais pode ser a conversa que poderá ser a alegria e felicidade da sua vida inteira !!!

  4. Texto preciso, capta uma sensação de mal-estar que permeia boa parte das relações atualmente. Mesmo que essa sensação seja inconsciente, muitas vezes. O vazio se dá por não haver a troca, a retroalimentação, e sim apenas a preocupação com o próprio prazer. É o não se dar. E no fim, vem a sensação de ser descartável, apenas mais um na “miríade de possibilidades” que, a bem da verdade, é apenas uma ilusão, com cada qual em busca de seu quinhão, sem abrir espaço no coração para a verdadeira emoção.

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